A Globo concedeu a Lula um direito de resposta e Flávio Bolsonaro se desculpou com o petista

O último debate entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), realizado pela TV Globo na noite de 23 de outubro de 2026, foi marcado por propostas, críticas econômicas e momentos de forte tensão entre os candidatos. Flávio cita “9 dedos” durante uma discussão sobre salário mínimo e impostos, fazendo referência ao acidente de trabalho que provocou a perda de parte do dedo mínimo da mão esquerda de Lula. A declaração acabou se tornando um dos principais episódios do confronto, sobretudo depois que o presidente cobrou uma retratação pública do senador.
A provocação ocorreu durante uma discussão sobre a proposta de Lula de oferecer tarifa zero no transporte público aos fins de semana e sobre o poder de compra dos trabalhadores. Flávio afirmou que o governo poderia dar benefícios com uma mão e retirar recursos dos brasileiros com os “nove dedos”, associando a expressão à política tributária e à perda de poder de compra. Embora a fala tenha provocado reação entre apoiadores do senador presentes no estúdio, a referência à deficiência física de Lula rapidamente passou a dominar a repercussão do debate.
No bloco seguinte, Lula recebeu direito de resposta e decidiu enfrentar diretamente a declaração, lembrando sua trajetória como trabalhador e o acidente sofrido ainda na adolescência. O presidente afirmou que perdeu o dedo aos 17 anos enquanto trabalhava como metalúrgico e disse que não permitiria que sua história fosse utilizada daquela maneira durante a disputa eleitoral. Em seguida, Lula cobrou uma retratação de Flávio, que posteriormente pediu desculpas e afirmou que não havia pretendido ofendê-lo.
Flávio cita “9 dedos” e Lula relembra acidente de trabalho
A origem da referência utilizada por Flávio está em um acidente ocorrido em 1964, quando Lula trabalhava como torneiro mecânico em uma metalúrgica de São Paulo. Durante o trabalho no turno da madrugada, uma prensa atingiu sua mão e provocou a amputação do dedo mínimo esquerdo, episódio que passou a fazer parte da trajetória pessoal do político desde sua entrada na vida sindical. Por isso, a expressão utilizada no debate atingiu diretamente uma característica física que também está relacionada à história profissional construída por Lula ao longo de décadas.
Ao responder, Lula procurou transformar a provocação em uma discussão sobre a realidade dos trabalhadores brasileiros e sobre acidentes ocorridos durante o exercício profissional. O presidente afirmou que conhecia o mundo do trabalho por experiência própria e criticou Flávio por, segundo ele, não possuir uma trajetória profissional semelhante à sua. Dessa forma, a disputa deixou momentaneamente de ser apenas sobre impostos e salário mínimo e passou a envolver origem social, experiência profissional e a forma como adversários políticos utilizam características pessoais em campanhas eleitorais.
Flávio, posteriormente, decidiu recuar e pediu desculpas a Lula pela utilização da expressão. O senador afirmou que, se havia ofendido o adversário, lamentava o ocorrido e garantiu que não tinha intenção de provocar uma ofensa pessoal, embora tenha aproveitado a mesma intervenção para continuar atacando o governo. Assim, o pedido de desculpas encerrou parcialmente a controvérsia, mas não impediu que o episódio permanecesse entre os momentos mais comentados do debate.
Pedido de desculpas mantém disputa política entre Lula e Flávio
Apesar da retratação, o confronto entre os dois candidatos continuou intenso durante os demais blocos do debate. Flávio voltou a questionar a situação econômica do país, citando endividamento, custo de vida e poder de compra, enquanto Lula respondeu defendendo ações do governo e criticando posições atribuídas ao grupo político ligado ao adversário. Além disso, assuntos como saneamento básico, obras de infraestrutura, saúde, segurança pública e políticas sociais também foram colocados em discussão.
O episódio dos “nove dedos” também deve ser analisado dentro do contexto de uma eleição presidencial extremamente polarizada e realizada às vésperas do segundo turno. Como o debate aconteceu em 23 de outubro, apenas dois dias antes da votação prevista para 25 de outubro, cada declaração passou a ter potencial para ser reproduzida nas redes sociais e explorada pelas campanhas. Nesse ambiente, uma provocação pessoal pode ganhar dimensão eleitoral maior do que a discussão original sobre economia, especialmente quando envolve um aspecto conhecido da trajetória de um dos candidatos.
Além da discussão sobre a expressão, outros momentos do confronto foram igualmente utilizados pelos candidatos para tentar atingir o adversário perante o eleitorado. Flávio questionou Lula sobre quem governaria o país, após o presidente sugerir que ele consultasse informações na internet, enquanto Lula fez críticas à atuação do governo Jair Bolsonaro durante a pandemia e mencionou questões relacionadas à segurança pública. Portanto, o debate foi marcado por uma combinação de propostas, cobranças, ironias e ataques pessoais, em uma reta final na qual cada candidato buscava consolidar sua narrativa diante do eleitor.
O que o episódio dos “9 dedos” revela sobre a eleição
A repercussão da frase mostra como determinados momentos de um debate presidencial podem ultrapassar rapidamente o tema originalmente discutido. Flávio cita “9 dedos” como parte de uma crítica à política econômica, mas Lula conseguiu deslocar o foco para sua trajetória de trabalhador e para o acidente que sofreu quando ainda era adolescente. Consequentemente, a expressão passou a ser discutida não apenas como argumento eleitoral, mas também sob a perspectiva do respeito às pessoas com deficiência e aos trabalhadores vítimas de acidentes profissionais.
No fim, o pedido de desculpas feito por Flávio não apagou a tensão provocada pela declaração, mas demonstrou como o episódio precisou ser administrado ainda durante o próprio debate. Lula utilizou a resposta para reforçar sua identidade política ligada ao mundo do trabalho, enquanto Flávio tentou retornar rapidamente às críticas sobre economia, endividamento e custo de vida. Com a votação se aproximando, o confronto evidenciou que a disputa presidencial não seria decidida apenas por números e propostas, mas também pela capacidade de cada candidato de controlar a narrativa nos momentos de maior repercussão.





