Alguns deslizes de Flávio Bolsonaro na sabatina da Globo deixaram os aliados do candidato preocupados

A entrevista de Flávio Bolsonaro ao Jornal Nacional, exibida nesta sexta-feira (29), foi considerada positiva por aliados do candidato à Presidência, principalmente pela postura adotada diante das perguntas mais difíceis. Nos bastidores, havia preocupação de que o senador demonstrasse nervosismo ou reagisse de maneira exaltada, mas essa expectativa negativa não se confirmou durante a conversa. Ainda assim, integrantes de sua própria campanha apontaram deslizes que, na avaliação interna, limitaram o potencial da participação para conquistar eleitores que ainda não estavam convencidos de votar no candidato.
O principal elogio feito pelos aliados esteve relacionado à calma apresentada por Flávio durante a sabatina conduzida por Renata Vasconcellos e William Bonner. Segundo pessoas próximas à campanha, o senador conseguiu evitar rompantes e, dessa maneira, também se distanciou da imagem mais combativa associada ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. A mudança de comportamento fazia parte de uma estratégia que vinha sendo construída para apresentar Flávio como uma opção mais moderada dentro do campo bolsonarista.
Entretanto, a avaliação positiva não significou uma aprovação completa do desempenho eleitoral. Aliados entenderam que alguns momentos da entrevista acabaram falando mais diretamente com o eleitorado que já apoiava Flávio do que com pessoas que ainda poderiam ser conquistadas durante a campanha. Por isso, os deslizes ganharam importância na análise interna, principalmente porque a entrevista havia sido tratada como uma oportunidade para ampliar a base eleitoral do candidato.
Flávio Bolsonaro foi criticado por resposta sobre mudanças climáticas
Um dos principais deslizes apontados pelos aliados ocorreu quando Flávio foi questionado sobre o aquecimento global e as mudanças climáticas. Ao responder, o candidato mencionou eventos climáticos extremos, mas não estabeleceu uma relação direta entre esses fenômenos e a ação humana, o que foi considerado insuficiente por integrantes da própria campanha. Para essas pessoas, a resposta poderia ter agradado quem já estava alinhado com Flávio, mas não teria ajudado a aproximá-lo de eleitores indecisos.
A questão climática foi considerada especialmente sensível porque envolve um tema que vem ganhando espaço nas preocupações do eleitorado e também possui forte impacto econômico e social. Nesse sentido, os aliados avaliaram que Flávio perdeu uma oportunidade de apresentar uma posição mais ampla sobre meio ambiente, desenvolvimento e prevenção de eventos extremos. A resposta, portanto, foi vista como um dos pontos em que o candidato poderia ter demonstrado maior capacidade de dialogar com públicos que estão fora de sua base tradicional.
Outro ponto delicado esteve relacionado às perguntas sobre Daniel Vorcaro e sobre o filme Dark Horse, produção que aborda a trajetória de Jair Bolsonaro. Segundo a Jovem Pan, a equipe havia preparado Flávio intensamente para responder aos questionamentos sobre esses assuntos, e a avaliação interna foi de que ele conseguiu seguir as respostas que haviam sido preparadas. Apesar disso, o problema identificado pelos aliados foi que o desempenho não teria produzido um ganho eleitoral concreto.
Caso Vorcaro e filme de Bolsonaro limitaram resultado eleitoral
A relação de Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro já vinha sendo um tema delicado para a campanha presidencial. Meses antes, aliados haviam demonstrado preocupação com os efeitos políticos de conversas e encontros envolvendo o senador e o banqueiro, especialmente porque o episódio passou a exigir uma estratégia específica de comunicação. A própria campanha reconheceu anteriormente que o assunto havia provocado dificuldades e que declarações desencontradas poderiam aumentar o desgaste do candidato.
Na entrevista ao Jornal Nacional, Flávio também foi questionado sobre o contrato relacionado ao filme Dark Horse, mas não se comprometeu a divulgar o documento. Esse ponto foi considerado relevante por um auxiliar da campanha, que avaliou que a falta de um compromisso mais concreto reduziu a possibilidade de a resposta convencer pessoas que ainda não apoiavam o candidato. Dessa maneira, embora Flávio tenha conseguido evitar uma reação considerada desastrosa, seus aliados concluíram que ele provavelmente não conquistou novos votos nesse trecho da entrevista.
A análise revela uma diferença importante entre simplesmente evitar uma crise e conseguir transformar uma entrevista em crescimento eleitoral. Para a campanha, Flávio cumpriu a tarefa básica de permanecer calmo e responder aos questionamentos sem grandes rompantes, mas algumas oportunidades de ampliar seu eleitorado foram desperdiçadas. Essa preocupação se encaixava em uma estratégia que já vinha sendo adotada para reduzir polêmicas, tratar de temas cotidianos e apresentar o senador como um Bolsonaro diferente do pai.
Aliados de Flávio Bolsonaro querem reduzir novos deslizes
A preocupação com novos deslizes não ficou restrita à entrevista do Jornal Nacional. Nos dias anteriores, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, vinha aconselhando integrantes da campanha de Flávio sobre declarações capazes de provocar desgaste, inclusive depois de uma fala do senador sobre a possibilidade de rever o percentual de etanol misturado à gasolina. O episódio provocou reação de entidades do setor e levou Tarcísio a procurar o coordenador da campanha, Rogério Marinho, para alertar sobre os riscos políticos da declaração.
O conjunto desses episódios mostra que a campanha passou a tratar a comunicação de Flávio como um ponto estratégico para a disputa presidencial. Ao mesmo tempo em que os aliados comemoraram o comportamento mais controlado no Jornal Nacional, eles reconheceram que ainda existem dificuldades para transformar essa postura em votos entre eleitores que não fazem parte da base bolsonarista. Assim, o desafio colocado para a campanha passou a ser manter a calma demonstrada na entrevista, corrigir os pontos considerados frágeis e evitar novas declarações capazes de reabrir crises durante a corrida eleitoral.





