Davi Alcolumbre, presidente do Senado planejava contestar a medida restritiva contra Flávio Bolsonaro

O plano secreto de Davi Alcolumbre para tentar reverter a decisão que determinou o cancelamento dos passaportes de Flávio Bolsonaro perdeu sentido depois que o senador deixou o Brasil e viajou para os Estados Unidos. Segundo informações publicadas pelo Estado de Minas, com base em apuração da Folha de S.Paulo, o presidente do Senado pretendia contestar a medida no Supremo Tribunal Federal (STF) e buscava uma solução negociada com integrantes da Corte. A iniciativa, porém, acabou interrompida quando Flávio descumpriu o prazo judicial para entregar os documentos à Polícia Federal e deixou o país na terça-feira, 27 de outubro.
De acordo com relatos de parlamentares próximos a Alcolumbre, o presidente do Senado considerava excessiva a decisão que atingiu o senador do PL do Rio de Janeiro. A avaliação atribuída a ele era de que o cancelamento dos passaportes poderia ampliar o conflito entre o Legislativo e o Judiciário, além de atingir institucionalmente o Senado, uma vez que Flávio ainda exercia mandato parlamentar. Por isso, Alcolumbre teria considerado apresentar um recurso em nome da Casa para tentar anular a determinação, em vez de deixar que o episódio avançasse sem uma tentativa de interlocução.
A articulação teria começado antes da viagem de Flávio, quando Alcolumbre procurou interlocutores no Supremo para discutir alternativas à apreensão dos documentos. Três parlamentares aliados do presidente do Senado relataram que ele contou ter conversado com o ministro Gilmar Mendes, decano da Corte, na segunda-feira, 26 de outubro, em busca de uma saída mediada. O próprio Alcolumbre, entretanto, negou que essa ligação tivesse ocorrido, e Gilmar Mendes também afirmou que não conversou com o senador naquela ocasião, deixando versões diferentes sobre a suposta articulação.
Alcolumbre pretendia recorrer ao STF contra cancelamento dos passaportes
Segundo os relatos apresentados por aliados, Alcolumbre pretendia conversar também com o ministro Alexandre de Moraes, responsável pela decisão que determinou o cancelamento e a apreensão dos passaportes de Flávio. A intenção seria argumentar que a medida poderia aumentar a tensão política entre os Poderes e oferecer novos motivos para manifestações de apoiadores do bolsonarismo contra o Supremo. O presidente do Senado avaliava, conforme os interlocutores ouvidos pela Folha, que a situação poderia ser encaminhada por meio de uma negociação institucional antes da apresentação de um recurso formal.
A decisão de Moraes havia sido tomada depois da proclamação do resultado da eleição presidencial, vencida por Luiz Inácio Lula da Silva, e atendeu a um pedido da Polícia Federal. A corporação apontou risco concreto de que Flávio deixasse o território nacional, considerando as investigações em andamento e a possibilidade de que o senador tentasse se afastar do alcance das autoridades brasileiras. A determinação estabeleceu prazo para a entrega dos documentos à Polícia Federal, mas Flávio não cumpriu a ordem e viajou para os Estados Unidos com a família.
A viagem realizada na terça-feira mudou o cenário para a iniciativa que Alcolumbre pretendia levar ao Supremo. Na avaliação de interlocutores do presidente do Senado, já não faria sentido apresentar uma contestação destinada a garantir que Flávio mantivesse os passaportes, uma vez que ele havia deixado o Brasil sem cumprir a determinação judicial. O episódio também alterou o debate institucional, pois a discussão deixou de se concentrar apenas na apreensão dos documentos e passou a envolver o descumprimento da ordem e a saída do senador do país.
Fuga de Flávio interrompeu articulação política de Davi Alcolumbre
A saída de Flávio ocorreu em meio a uma sequência de acontecimentos que começou após a derrota na eleição presidencial. O senador tinha afirmado anteriormente que não pretendia deixar o Brasil e que entregaria os passaportes, mas acabou viajando antes do prazo estabelecido pela decisão judicial. Depois da chegada aos Estados Unidos, ele divulgou manifestações nas redes sociais nas quais alegou ser perseguido politicamente e questionou o resultado eleitoral, sem apresentar provas de fraude na votação.
A decisão de Alcolumbre de tentar questionar a apreensão dos documentos também foi relacionada à preocupação com o relacionamento entre o Senado e o Supremo. O presidente da Casa busca permanecer no comando do Legislativo em 2027, quando será realizada uma nova eleição para a presidência do Senado, e enfrenta um cenário de maior presença de parlamentares de direita. Parte desse grupo defende medidas contra ministros do STF, incluindo pedidos de impeachment, enquanto Alcolumbre procura evitar que o conflito entre os Poderes se intensifique.
Nesse contexto, a interlocução com o Supremo poderia representar uma tentativa de manter canais de negociação abertos, mas a viagem de Flávio alterou as condições políticas da iniciativa. A reportagem também aponta que Alcolumbre vinha conversando com aliados sobre propostas relacionadas à situação do ex-presidente Jair Bolsonaro, que está preso desde agosto de 2025 após condenação por participação na tentativa de golpe de Estado. Entre as alternativas mencionadas estaria a defesa de um indulto humanitário ou de uma anistia, temas que também integram as articulações políticas para o próximo período legislativo.
Reeleição de Alcolumbre e propostas para Jair Bolsonaro entram no cenário
Segundo os relatos publicados, Alcolumbre teria dito a aliados que procuraria Lula para defender a concessão de um indulto humanitário a Jair Bolsonaro. Caso o presidente não aceitasse a proposta, o senador avaliaria apoiar uma iniciativa de anistia no Congresso e tentar convencer o chefe do Executivo a não vetar eventual projeto aprovado pelos parlamentares. Essas conversas aparecem no contexto da busca de Alcolumbre por apoio político para continuar à frente do Senado, embora a proposta não tenha sido apresentada como um acordo formal com os integrantes da oposição.
A movimentação, entretanto, não garantiu apoio automático de parlamentares bolsonaristas à permanência de Alcolumbre no comando da Casa. A reportagem informa que parte dos senadores da oposição não demonstrava disposição para apoiar sua recondução, mesmo diante de possíveis gestos relacionados à situação de Jair Bolsonaro. Alguns parlamentares consideravam que a tentativa de aproximação poderia abrir espaço para uma reavaliação das relações, mas a maioria dos integrantes ouvidos não indicava compromisso com a reeleição do atual presidente do Senado.
O plano de Alcolumbre para contestar a decisão sobre os passaportes de Flávio, portanto, acabou perdendo seu objetivo depois da viagem do senador aos Estados Unidos. A tentativa de interlocução com ministros do Supremo foi relatada por aliados, mas negada tanto pelo presidente do Senado quanto por Gilmar Mendes, uma divergência que precisa ser considerada na reconstrução do episódio. Com a fuga e a abertura de novas discussões sobre o futuro político de Flávio, o caso passou a envolver também o relacionamento entre Congresso e Judiciário, a disputa pela presidência do Senado em 2027 e as propostas relacionadas a Jair Bolsonaro.





