Proposta de colaboração premiada de Vorcaro detalha mensagens trocadas com Moraes

Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro e propostas de colaboração premiada apresentadas pelo ex-banqueiro trazem versões diferentes sobre a relação dele com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O material foi analisado em reportagem de Fabio Serapião, Cézar Feitoza e Natália Portinari, publicada pelo UOL nesta segunda-feira, 14 de setembro. A comparação dos documentos e das conversas ocorre às vésperas da sessão do STF que deverá discutir a abertura de uma investigação sobre a relação entre Moraes e Vorcaro.
Nas três propostas de delação apresentadas por Vorcaro, o banqueiro afirmou que tentou se aproximar de Moraes e que chegou a insistir para criar uma relação de amizade com o ministro. Ele também declarou que enviou mensagens de maneira inconveniente e que procurou o magistrado em meio às dificuldades enfrentadas pelo Banco Master. Segundo os documentos, porém, Vorcaro não atribuiu crimes ou favorecimentos ao ministro nas versões apresentadas aos investigadores.
As propostas foram rejeitadas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República, entre outros motivos, pela avaliação de que havia poucos elementos inéditos e suspeitas relacionadas à proteção de autoridades. A reportagem aponta que Vorcaro omitiu nas propostas a totalidade das conversas mantidas com Moraes e citou de forma específica apenas uma das mensagens. O conteúdo recuperado pela PF, por sua vez, apresenta diálogos que levantaram questionamentos adicionais sobre a proximidade entre o banqueiro e o ministro.
Contratos com escritório da família de Moraes entram no caso
Outro ponto abordado nos documentos é a contratação do escritório de advocacia da esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes. Vorcaro afirmou que buscava reforçar a equipe jurídica do Banco Master diante das denúncias que passaram a atingir a instituição e relatou que procurava escritórios considerados influentes. Nas propostas, ele declarou que a contratação também ocorreu dentro de sua tentativa de se aproximar do ministro.
De acordo com o material analisado pela Polícia Federal, foram identificados dois contratos relacionados ao escritório, um no valor de R$ 130 milhões e outro de R$ 50 milhões, que previa a transferência de cotas de uso de aeronaves do banqueiro para a família de Moraes. Vorcaro afirmou em sua primeira proposta que os aviões foram emprestados por preocupação com a segurança de Viviane e de seus familiares durante um período de exposição. Nas versões posteriores encaminhadas aos investigadores, esse trecho sobre a preocupação com a proteção da advogada foi retirado.
As mensagens analisadas pela PF também registram preocupação de Vorcaro com os pagamentos ao escritório. Em uma conversa de março de 2024, Fábio Faria teria cobrado o pagamento e feito referência ao ministro, enquanto Vorcaro demonstrou irritação com o atraso e classificou o contrato como um dos mais importantes do banco. O banqueiro afirmou posteriormente que a expressão usada para se referir a Moraes era apenas uma forma informal de tratar do assunto.
Mensagens revelam contatos durante investigação
A análise das conversas também apontou que os contatos entre Vorcaro e Moraes ocorreram em um período no qual o banqueiro enfrentava investigações. Segundo o relatório da PF, foram recuperadas 52 mensagens escritas por Vorcaro em um aplicativo de bloco de notas e enviadas ao ministro entre 28 de outubro e 17 de novembro de 2025. As mensagens eram encaminhadas por capturas de tela configuradas para visualização única, o que impediu os investigadores de recuperar no aparelho de Vorcaro o conteúdo enviado pelo ministro.
Um dos pontos destacados pela reportagem é que as mensagens não mostram apenas Vorcaro procurando Moraes, pois há registros indicando que o próprio ministro teria iniciado conversas sobre assuntos relacionados à investigação da Polícia Federal. Em uma mensagem enviada pouco antes da primeira prisão do banqueiro, Vorcaro perguntou a Moraes sobre uma possível operação, mencionou o juiz federal responsável pelo caso e questionou se deveria deixar o país. O diálogo também envolveu referências a Paulo Gonet, da Procuradoria-Geral da República, e Andrei Rodrigues, então diretor-geral da Polícia Federal.
No dia anterior à prisão, Vorcaro chegou a perguntar a Moraes sobre a possibilidade de uma medida judicial ocorrer na manhã seguinte. As mensagens mostram que o banqueiro também relatou movimentações para tentar preservar o Banco Master e buscou informações sobre possíveis providências contra a instituição. Depois dessas conversas, ele antecipou uma viagem para os Emirados Árabes e acabou preso no Aeroporto de Guarulhos em 17 de novembro de 2025.
STF deve analisar abertura de investigação sobre Moraes
O conjunto de mensagens e documentos ganhou importância porque o plenário do STF deverá analisar nesta terça-feira, 15 de setembro, se será aberta uma investigação para apurar a relação entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. O caso envolve justamente a necessidade de esclarecer o conteúdo das comunicações e as circunstâncias relacionadas aos contratos firmados com o escritório da família do ministro. A análise ocorrerá em meio a uma disputa interna entre ministros sobre o acesso e a divulgação dos elementos reunidos pela Polícia Federal.
As propostas de delação apresentadas por Vorcaro, por outro lado, não estabeleceram acusações criminais contra Moraes e foram rejeitadas pelas autoridades responsáveis pelas negociações. Já o material recuperado pela PF contém registros de contatos que levantaram dúvidas e passaram a integrar a discussão sobre a eventual abertura de uma investigação. O contraste entre a versão apresentada pelo banqueiro nos documentos de colaboração e o conteúdo das mensagens é um dos principais pontos destacados na reportagem do UOL.





