Enfrentando uma grande crise bancária, o Paraguai ainda poderá lidar com um impeachment do presidente

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, enfrenta uma grave crise política depois que deputados da oposição apresentaram um pedido de impeachment contra ele e o vice-presidente Pedro Alliana. A iniciativa foi protocolada em meio à repercussão do fechamento do Ueno Bank, instituição financeira cuja intervenção deixou aproximadamente 3 milhões de clientes sem acesso às próprias contas e provocou protestos em diferentes regiões do país. O episódio também colocou sob pressão o governo paraguaio, especialmente porque Peña teve participação acionária no grupo empresarial controlador do banco até março de 2025, circunstância que passou a ser questionada pelos parlamentares responsáveis pela acusação.
O documento apresentado à Câmara dos Deputados do Paraguai reúne assinaturas de 35 parlamentares e solicita a abertura de um julgamento político contra as duas principais autoridades do Poder Executivo. A oposição sustenta que o presidente precisa responder por possíveis conflitos de interesses, decisões regulatórias questionáveis e problemas relacionados à concentração de recursos públicos e previdenciários na instituição financeira. Além disso, os deputados apontam possíveis falhas na fiscalização do banco e questionam a atuação das autoridades responsáveis por acompanhar sua situação financeira antes da intervenção determinada pelo Banco Central.
A crise ganhou proporções nacionais depois que o Ueno Bank teve suas operações suspensas na terça-feira (3), após a autoridade monetária identificar problemas graves nos indicadores de solvência da instituição. Com o fechamento das agências e a interrupção dos serviços, milhões de correntistas ficaram impossibilitados de movimentar seus recursos, enquanto filas se formaram diante das unidades bancárias em busca de informações e alternativas para recuperar o dinheiro. Dessa maneira, uma questão inicialmente relacionada à saúde financeira de uma instituição privada transformou-se em um problema político de grandes proporções, atingindo diretamente a confiança da população no sistema bancário paraguaio.
Impeachment de Santiago Peña avança após crise no sistema bancário paraguaio
A apresentação do pedido de impeachment ocorreu na quarta-feira (4), quando parlamentares oposicionistas formalizaram a acusação e solicitaram a convocação de uma sessão extraordinária para discutir o afastamento do presidente e do vice. Entre os deputados envolvidos na iniciativa estão Rocío Vallejo, Johanna Ortega e Raúl Benítez, que defendem a responsabilização política das autoridades diante das consequências provocadas pela intervenção no Ueno Bank. A movimentação também recebeu apoio de parlamentares dissidentes do Partido Colorado, legenda à qual Peña pertence, indicando que o desgaste político ultrapassou os limites tradicionais da oposição.
O principal argumento apresentado contra Santiago Peña envolve seu antigo vínculo empresarial com o grupo responsável pelo controle do banco, conhecido como Grupo Vázquez. O presidente foi acionista da estrutura empresarial até março de 2025, depois de assumir o governo paraguaio em agosto de 2023, o que levou os opositores a questionarem se houve separação adequada entre seus interesses privados e as decisões tomadas pelo Poder Executivo. Segundo os acusadores, essa relação precisa ser examinada porque a instituição recebeu volumes expressivos de recursos públicos, incluindo depósitos vinculados ao sistema previdenciário do país, enquanto apresentava problemas financeiros que acabaram levando à intervenção.
Outro ponto levantado pelos parlamentares está relacionado à atuação do Banco Central do Paraguai, responsável pela fiscalização das instituições financeiras e pela decisão de interromper as operações do Ueno. A oposição questiona se mecanismos de controle foram utilizados de maneira adequada e se operações de crédito envolvendo empresas relacionadas ao próprio grupo controlador contribuíram para esconder ou ampliar os problemas de solvência. As acusações também mencionam possíveis irregularidades na utilização de recursos previdenciários, mas essas suspeitas ainda precisam ser apuradas pelas autoridades competentes e não representam, por si só, uma condenação do presidente.
Fechamento do Ueno Bank deixa milhões de paraguaios sem acesso ao dinheiro
A situação financeira do Ueno Bank começou a provocar consequências mais graves depois que o Banco Central identificou insuficiência de capital e problemas relacionados à concessão de empréstimos para empresas vinculadas ao grupo empresarial controlador. Segundo as informações divulgadas pelas autoridades e pela imprensa internacional, a instituição concentrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos relacionados ao Instituto de Previdência Social do Paraguai. Além disso, o banco possuía cerca de 3 milhões de clientes em um país com pouco mais de 6 milhões de habitantes, o que explica a dimensão do impacto provocado pela suspensão dos serviços.
A crise também atingiu diretamente o funcionamento do sistema de fiscalização financeira porque Carlos Carvallo, então presidente do Banco Central paraguaio, deixou o cargo depois da intervenção na instituição. Carvallo havia presidido a antiga financeira que deu origem ao Ueno antes de assumir o comando da autoridade monetária, circunstância que também passou a ser questionada no debate político. Enquanto isso, oito dirigentes ligados ao banco foram presos, incluindo o presidente-executivo Miguel Vázquez, e as investigações passaram a examinar possíveis crimes relacionados à administração da instituição e à movimentação de recursos.
Diante da pressão popular, Santiago Peña sancionou uma lei aprovada rapidamente pelo Congresso para permitir que os correntistas recebam parte dos valores protegidos pelo mecanismo de garantia de depósitos em prazo reduzido. A medida estabelece a liberação dos pagamentos dentro de cinco dias, respeitando os limites previstos para a cobertura dos recursos depositados, mas não elimina imediatamente todos os problemas enfrentados pelos clientes. Mesmo com a iniciativa do governo, manifestações continuaram sendo organizadas em Assunção, capital paraguaia, onde cidadãos cobraram explicações, responsabilização dos envolvidos e garantias de recuperação das economias mantidas no banco.
Pedido de impeachment no Paraguai depende de votação no Congresso
O processo de julgamento político previsto na Constituição paraguaia possui etapas específicas e não determina o afastamento automático do presidente apenas pela apresentação de uma acusação. Inicialmente, a Câmara dos Deputados precisa aprovar a abertura do procedimento por uma maioria qualificada de dois terços, o que exige aproximadamente 53 votos considerando a composição de 80 parlamentares. Caso a acusação seja aprovada, a responsabilidade pelo julgamento passa ao Senado, que poderá decidir pela destituição do presidente ou do vice-presidente se alcançar o apoio de pelo menos 30 dos 45 senadores.
A situação representa um desafio para a oposição porque o Partido Colorado, ao qual Santiago Peña pertence, mantém maioria nas duas casas do Congresso e possui influência sobre a definição dos votos governistas. Entretanto, a crise bancária provocou divergências dentro da própria legenda, especialmente entre parlamentares que passaram a questionar a condução do governo e a atuação das autoridades financeiras. O ex-presidente Horacio Cartes, liderança influente do Partido Colorado, também aparece como personagem importante nesse cenário, pois sua posição poderá interferir diretamente na decisão dos parlamentares governistas sobre o futuro do pedido.
O episódio também desperta lembranças do impeachment de Fernando Lugo, ocorrido em junho de 2012, quando o então presidente foi destituído pelo Congresso após um processo político extremamente rápido. Naquele momento, a decisão provocou repercussão internacional e levou a consequências diplomáticas para o Paraguai, inclusive a suspensão temporária do país do Mercosul. Agora, com a crise envolvendo o Ueno Bank, o país volta a enfrentar uma disputa institucional de grandes proporções, enquanto a população aguarda respostas sobre a recuperação dos depósitos e a responsabilização dos envolvidos.





