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Grupo de evangélicos progressistas se mostrara contra a eleição de Flávio Bolsonaro

A Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito (FEDD), grupo formado por religiosos alinhados ao campo progressista, declarou apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e afirmou que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL) representaria um “retrocesso” para o Brasil. A posição foi apresentada em meio à disputa do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, marcada pela busca dos dois candidatos por apoio entre os eleitores evangélicos. Em reportagem publicada em 9 de outubro, o Metrópoles detalhou as críticas do movimento ao senador e as razões que levaram a organização a se posicionar publicamente.

Um dos coordenadores da frente, o pastor Ariovaldo Ramos, afirmou ao Metrópoles que Flávio Bolsonaro estaria utilizando a religião em benefício de sua candidatura e justificou o apoio à continuidade do atual governo. “Flávio Bolsonaro manipula a religião a favor de sua candidatura de forma escancarada, por isso decidimos tomar uma posição e apoiar a manutenção do atual governo, liderado por Lula”, declarou o religioso. Na mesma entrevista, Ramos classificou uma possível vitória do senador como um “retrocesso civilizatório”, expressando a avaliação política do grupo sobre os rumos que o país poderia seguir.

A manifestação ocorreu depois de declarações de Flávio sobre a possibilidade de promover mudanças na Constituição Federal, utilizando a influência conquistada pela direita no Congresso Nacional. Durante um evento em Goiânia, o candidato mencionou a intenção de rever aspectos do sistema constitucional e posteriormente detalhou propostas relacionadas à maioridade penal e ao fim da reeleição. As declarações provocaram reações entre apoiadores de Lula, incluindo integrantes da frente evangélica, que demonstraram preocupação com as mudanças defendidas pelo senador e seus possíveis efeitos institucionais.

Por que a frente evangélica declarou apoio a Lula

Criada em 2016, durante o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito busca representar uma corrente religiosa ligada a pautas progressistas. Entre os temas defendidos pelo movimento estão a democracia, os direitos humanos, a justiça social, a proteção de minorias e o fortalecimento de políticas públicas. A organização também defende a separação entre religião e política, com iniciativas voltadas à conscientização de fiéis sobre questões sociais e institucionais.

A frente procura se diferenciar da atuação de setores mais conservadores representados pela Frente Parlamentar Evangélica no Congresso Nacional, que reúne parlamentares de diferentes partidos e correntes religiosas. Para o grupo que declarou apoio a Lula, a participação de evangélicos na política não deve ficar restrita a uma única orientação partidária ou a lideranças religiosas de grande influência pública. A organização sustenta que os cristãos possuem posições diversas sobre os problemas brasileiros e podem participar do debate político a partir de diferentes interpretações sobre democracia, direitos e políticas sociais.

Segundo o Metrópoles, a frente também pretende ampliar o diálogo com evangélicos que não compareceram às urnas no primeiro turno, realizado em 4 de outubro. A reportagem informou que mais de 33 milhões de brasileiros não votaram nessa etapa da eleição, grupo que passou a ser considerado pelas campanhas e por movimentos de apoio como parte importante da disputa seguinte. A iniciativa busca apresentar argumentos políticos a esses eleitores e estimular a participação no segundo turno, marcado para 25 de outubro.

Disputa pelo voto evangélico ganha importância no segundo turno

A aproximação com o eleitorado evangélico tornou-se uma das frentes da campanha presidencial, especialmente porque pesquisas anteriores ao primeiro turno apontavam vantagem de Flávio Bolsonaro nesse segmento. O Metrópoles informou que o senador recebeu 47,03% dos votos válidos no primeiro turno em todo o país, enquanto Lula obteve 45,16%, resultado que levou os dois candidatos à etapa decisiva da eleição. A diferença entre os concorrentes e a necessidade de conquistar novos apoios ampliaram a atenção das campanhas a grupos religiosos e eleitores que escolheram outras candidaturas ou não votaram.

O Partido dos Trabalhadores também passou a direcionar esforços para eleitores evangélicos que haviam optado por Augusto Cury (Avante), candidato que recebeu 2,89% dos votos válidos no primeiro turno, segundo a reportagem. Em 8 de outubro, Cury declarou apoio a Flávio Bolsonaro e divulgou um vídeo em favor do antigo adversário eleitoral, movimento que acrescentou um novo elemento à disputa por esse segmento. Apesar disso, integrantes da campanha petista avaliam que parte dos eleitores que não votaram em Lula nem em Flávio na primeira etapa ainda pode reconsiderar sua escolha antes da votação final.

Lula também tem participado de encontros com religiosos e feito declarações destinadas a ampliar o diálogo com as igrejas evangélicas. Em uma reunião com jovens congressistas do PT e de partidos aliados, realizada em Brasília em 8 de outubro, o presidente destacou a influência das igrejas entre pessoas de baixa renda e falou sobre a busca por esperança, apoio e melhores condições de vida. A movimentação ocorre em um contexto no qual lideranças religiosas e organizações evangélicas apresentam posições diferentes sobre os candidatos, demonstrando que o segmento não possui uma orientação política única.

Críticas à relação entre religião e política

A declaração da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito reflete uma disputa sobre o papel das crenças religiosas na campanha presidencial e sobre a maneira como candidatos procuram estabelecer vínculos com fiéis. Para Ariovaldo Ramos, a atuação política de Flávio Bolsonaro representa uma utilização da religião que merece questionamento, enquanto o apoio a Lula foi apresentado pelo grupo como uma escolha relacionada às suas próprias posições políticas e sociais. Essas afirmações representam a avaliação da organização e não devem ser interpretadas como uma posição compartilhada por todas as igrejas evangélicas ou por todos os seus integrantes.

O cenário eleitoral também evidencia diferenças entre as prioridades de organizações religiosas, lideranças pastorais e eleitores individuais. Enquanto a frente progressista enfatiza democracia, direitos humanos e políticas públicas, outros grupos evangélicos apoiam candidaturas com propostas e orientações políticas distintas, inclusive a de Flávio Bolsonaro. A diversidade de posições reforça a importância de identificar quem está fazendo cada declaração, quais argumentos são apresentados e a que organização o posicionamento está vinculado.

A reportagem do Metrópoles mostra que o apoio da frente a Lula integra uma mobilização política mais ampla para conquistar votos no segundo turno e ampliar a presença do presidente entre os evangélicos. Ao classificar uma possível vitória de Flávio como “retrocesso”, Ariovaldo Ramos tornou explícita a avaliação do grupo sobre a candidatura do senador e suas propostas de mudanças constitucionais. A disputa continuará até 25 de outubro, quando os eleitores decidirão entre Lula e Flávio Bolsonaro, em uma eleição na qual os apoios de movimentos religiosos constituem parte do cenário político, mas não representam necessariamente a opinião de todo o eleitorado evangélico.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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