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Lula vem buscando novos acordos para diminuir a dependência que tem do Centrão

O governo Luiz Inácio Lula da Silva busca deixar encaminhados acordos com o Congresso Nacional antes que Câmara e Senado fiquem praticamente esvaziados por causa das eleições de 2026. A estratégia foi adotada para preservar compromissos já negociados com os presidentes das duas Casas e reduzir a necessidade de uma nova rodada de negociações com o Centrão depois das urnas. Com o cenário político previsto para mudar após o primeiro turno, o Planalto tenta garantir que suas principais pautas tenham condições de avançar quando os parlamentares retomarem as votações.

Lula discutiu a agenda legislativa com o presidente da Câmara, Hugo Motta, e com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, em reunião realizada no Palácio da Alvorada em 26 de agosto. Entre as prioridades estavam o fim da escala 6×1, a PEC da Segurança Pública, a chamada taxa das blusinhas, o marco dos minerais críticos e o Redata, programa de incentivos para instalação e ampliação de data centers. Parte desse pacote avançou durante o esforço concentrado realizado na semana passada, mas outras propostas foram adiadas para depois das eleições.

O movimento revela uma preocupação política importante do Planalto, já que a composição do Congresso poderá sofrer mudanças significativas depois da eleição. Parlamentares poderão ser derrotados, reeleitos ou escolhidos para outros cargos, enquanto os partidos de centro deverão iniciar novas negociações por espaços no governo, emendas e posições de comando no Legislativo. Por isso, o governo tenta preservar os entendimentos atuais para evitar que cada projeto volte a depender de uma negociação específica com o Centrão.

Governo tenta garantir apoio para as principais pautas

Entre as propostas que ficaram pendentes está a PEC que prevê o fim da escala 6×1, uma das principais bandeiras defendidas por Lula durante a campanha. O texto foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado e ficou pronto para ser analisado pelo plenário, mas o governo admitiu que ainda não tinha segurança sobre os 49 votos necessários para aprovar uma mudança constitucional. Diante da incerteza, a votação foi deixada para depois do primeiro turno, marcado para 4 de outubro.

A PEC da Segurança Pública também não teve sua tramitação concluída, apesar de ter avançado na Comissão de Constituição e Justiça. O texto principal foi aprovado, mas ainda precisam ser analisados destaques antes que a proposta seja encaminhada ao plenário do Senado. A LDO e o Orçamento de 2027 também permanecem como prioridades, criando uma agenda pesada para o Congresso na retomada dos trabalhos.

Enquanto isso, algumas medidas incluídas no acordo com os presidentes das Casas já foram aprovadas. O Congresso deu aval ao Redata, à política de minerais críticos e à medida provisória que permite zerar novamente o Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50. A chamada taxa das blusinhas exigia uma decisão rápida porque a medida provisória perderia a validade em 8 de setembro caso não fosse aprovada.

Lula enfrenta resistência e calcula os votos no Congresso

A dificuldade para aprovar a escala 6×1 mostrou que o governo ainda enfrenta limitações dentro da própria base parlamentar. O líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues, relatou que Alcolumbre questionou se havia segurança sobre os votos necessários antes de levar a proposta ao plenário. Como o levantamento feito pelo Planalto não indicava certeza suficiente, a decisão considerada mais prudente foi adiar a votação para um momento em que a base esteja mais segura.

O adiamento ocorreu mesmo depois de uma reaproximação entre Lula e Alcolumbre, que havia destravado a tramitação da proposta após 85 dias parada na Presidência do Senado. O senador afirmou que a votação da escala 6×1 será retomada depois das eleições, mantendo a possibilidade de que a pauta volte ao centro das discussões no segundo semestre. O governo, portanto, terá de preservar o diálogo construído antes do período eleitoral para evitar que a proposta perca espaço quando o Congresso retornar.

Centrão pode voltar ao centro das negociações após as eleições

A estratégia do governo também ocorre em meio a um ambiente político mais tenso, agravado pela crise envolvendo os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça no Supremo Tribunal Federal. O conflito relacionado ao caso Daniel Vorcaro aumentou a pressão da oposição sobre Davi Alcolumbre e passou a ser usado como instrumento de negociação em torno de pautas de interesse do governo. Senadores pressionam pela análise de pedidos de impeachment contra Moraes e alguns ameaçam dificultar a tramitação de projetos considerados prioritários pelo Planalto.

Dessa forma, o principal desafio de Lula será fazer com que os acordos construídos antes das eleições continuem válidos quando Câmara e Senado voltarem a funcionar em ritmo normal. Quanto maior o número de pautas acumuladas, maior poderá ser a necessidade de novas negociações envolvendo orçamento, emendas, espaços políticos e a composição da próxima legislatura. O governo tenta justamente evitar esse cenário ao deixar sua agenda parcialmente pactuada, mas a força do Centrão depois das urnas continuará sendo um dos fatores decisivos para o futuro das propostas no Congresso.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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