Moraes citou relatórios da PF que levam suspeita de investigações por motivo político

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), acusou o colega André Mendonça de ter direcionado investigações contra o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. A acusação foi apresentada em documento encaminhado ao presidente da Corte, Edson Fachin, no contexto da crise envolvendo as operações Compliance Zero e Sem Desconto. Segundo Moraes, haveria indícios de que Alcolumbre teria sido escolhido como alvo por razões pessoais e políticas relacionadas à disputa por influência dentro do Supremo.
A suspeita aparece em um relatório de inteligência da Polícia Federal citado por Moraes para sustentar seu pedido de providências contra Mendonça. No documento, Alcolumbre foi descrito como um “provável alvo estratégico”, levando em consideração sua posição como presidente do Senado, seu poder sobre a pauta da Casa e sua influência sobre pedidos de impeachment de ministros do STF. O relatório também apontou Antonio Rueda, presidente do União Brasil, como uma possível “rota de acesso” a Alcolumbre.
A ofensiva de Moraes ocorreu em meio a uma disputa institucional que ganhou intensidade após a divulgação de informações sobre as investigações relacionadas ao Banco Master e à atuação de Mendonça. O ministro afirmou haver indícios de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade na conduta do colega, acusação que ainda depende de apuração e análise das autoridades competentes. Por outro lado, é importante destacar que o relatório utilizado como fundamento foi produzido como documento de inteligência e, segundo informações divulgadas posteriormente, não possui valor probatório para instruir formalmente um procedimento.
Moraes acusa Mendonça de perseguir Alcolumbre por influência no Senado
De acordo com a avaliação apresentada no relatório, a posição de Alcolumbre no comando do Senado teria relevância estratégica para qualquer ministro interessado em ampliar sua influência política dentro do STF. O documento considerou que o senador teria condições de interferir na tramitação de pedidos de impeachment contra integrantes da Corte, o que faria dele uma figura importante na relação entre Legislativo e Judiciário. Dessa maneira, a PF levantou a hipótese de que Mendonça poderia considerar Alcolumbre um obstáculo ou um alvo relevante em uma suposta estratégia de recomposição de forças no Supremo.
O relatório também mencionou uma antiga divergência entre Mendonça e Alcolumbre, ocorrida durante o processo de indicação do atual ministro ao STF, no governo de Jair Bolsonaro. Naquele período, Alcolumbre presidia a Comissão de Constituição e Justiça do Senado e teria criado dificuldades para o avanço da indicação, segundo o documento citado por Moraes. Por isso, os investigadores avaliaram que Antonio Rueda poderia representar um possível caminho de aproximação com o presidente do Senado, embora essa hipótese não demonstre, por si só, que uma estratégia desse tipo tenha sido efetivamente executada.
Outro aspecto relevante é que o nome de Alcolumbre apareceu em uma relação de possíveis alvos que, segundo Moraes, teriam sido direcionados por Mendonça por motivos pessoais ou políticos. A acusação foi inserida em uma manifestação mais ampla na qual Moraes questionou a maneira como o colega conduziu procedimentos relacionados às operações Compliance Zero e Sem Desconto. Contudo, as conclusões apresentadas precisam ser diferenciadas de provas judiciais, principalmente porque o próprio documento de inteligência continha avaliações e hipóteses que não foram produzidas com finalidade probatória.
Relatório da PF aponta suposta estratégia de Mendonça
A acusação envolvendo Alcolumbre integra uma série de questionamentos feitos por Moraes sobre a atuação de Mendonça nas investigações do Banco Master. Segundo os documentos citados, o ministro teria interferido em atos relacionados à Polícia Federal, acessado informações de investigações e adotado medidas que, na avaliação apresentada, poderiam comprometer a condução técnica dos procedimentos. Também foram levantadas suspeitas sobre a participação de Mendonça em tratativas relacionadas a uma possível colaboração premiada de Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master.
O material utilizado por Moraes ainda apontou uma suposta diferença na maneira como Mendonça teria conduzido investigações envolvendo pessoas de diferentes campos políticos. Um dos exemplos citados foi a comparação entre Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e o ex-prefeito de Salvador ACM Neto, com a PF apontando possível adoção de padrões probatórios distintos. Segundo o relatório, essa avaliação indicaria uma possível assimetria na atuação do ministro, embora novamente se trate de uma conclusão de inteligência que deverá ser confrontada com os elementos dos processos.
A situação ganhou ainda mais repercussão porque Alcolumbre esteve entre os principais políticos que defenderam Moraes após a divulgação de conversas envolvendo o ministro e Daniel Vorcaro. Pouco antes de Moraes apresentar sua ofensiva contra Mendonça, os dois ministros também passaram a protagonizar um confronto institucional dentro do próprio STF, com acusações envolvendo a condução de investigações e a atuação de órgãos como a PF e a Procuradoria-Geral da República. Nesse contexto, a menção a Alcolumbre como “provável alvo estratégico” passou a ter peso político significativo, embora não represente uma comprovação definitiva de perseguição.
Crise entre Moraes e Mendonça chega à presidência do STF
O caso foi encaminhado por Moraes a Edson Fachin, presidente do STF, para que fossem avaliadas as providências consideradas cabíveis diante das acusações. Fachin determinou que os envolvidos prestassem esclarecimentos sobre os fatos apresentados, colocando a presidência da Corte no centro de uma crise que envolve dois de seus próprios ministros. Ao mesmo tempo, a utilização do relatório de inteligência passou a ser questionada porque o documento não teria sido produzido com valor probatório e continha avaliações de diferentes níveis de confiança.
A acusação de que Mendonça teria perseguido Alcolumbre, portanto, faz parte de uma disputa mais ampla sobre os limites da atuação de ministros do STF na supervisão de investigações. Moraes sustenta que existiriam indícios suficientes para justificar uma apuração, enquanto as alegações contra Mendonça ainda precisam ser examinadas à luz de documentos, manifestações dos envolvidos e outros elementos independentes. Dessa forma, o episódio coloca novamente em evidência a tensão entre STF, Senado e Polícia Federal, ao mesmo tempo em que abre uma nova frente de conflito dentro da própria Suprema Corte.





