Muitos candidatos estão usando a imagem de Lula, inclusive alguns que não são da coligação petista

A disputa por imagem de Lula no Maranhão ganhou uma dimensão inesperada durante a corrida eleitoral de 2026 e passou a expor divergências dentro do próprio Partido dos Trabalhadores. O conflito surgiu a partir do uso da imagem e da associação política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a candidatos que não integram a aliança formada pelo PT no estado. O episódio acabou levado à Justiça Eleitoral e revelou que a estratégia para a eleição presidencial nem sempre coincide com os interesses das candidaturas estaduais.
O caso envolveu diretamente Washington Oliveira, ex-vice-governador do Maranhão e integrante do PT, que publicou uma mensagem nas redes sociais convocando apoiadores para um ato em São Luís ao lado de Orleans Brandão, candidato do MDB ao governo estadual. A publicação foi retirada por determinação da Justiça Eleitoral após uma denúncia apresentada pelo aplicativo Pardal, sob o entendimento de que a mensagem poderia caracterizar pedido conjunto de votos para Lula e Orleans. O problema político, entretanto, ficou maior porque o MDB não fazia parte da coligação petista, que lançou o vice-governador Felipe Camarão como candidato ao governo.
A situação ganhou ainda mais repercussão porque a presidente do PT no Maranhão, Patrícia Carlos Macieira, afirmou que a denúncia teria partido de pessoas ligadas à própria candidatura de Felipe Camarão, embora o registro formal da reclamação tenha sido feito de maneira anônima. Para ela, a prioridade deveria ser a eleição de Lula, e não uma disputa interna sobre quem poderia ou não associar sua campanha ao presidente. Assim, a briga pela imagem de Lula passou a funcionar como um retrato das dificuldades enfrentadas pelo PT maranhense para conciliar a estratégia nacional com os interesses políticos locais.
Disputa por imagem de Lula expõe divisão entre aliados no Maranhão
A origem do conflito está em uma mudança importante no cenário político maranhense, que deixou de apresentar uma união entre os grupos que tradicionalmente compõem a base de Lula. Carlos Brandão, governador do estado, lançou o sobrinho Orleans Brandão para disputar sua sucessão, enquanto o PT decidiu apresentar Felipe Camarão, atual vice-governador, como candidato próprio. Dessa maneira, uma antiga composição política foi substituída por uma disputa direta entre aliados que continuam tentando preservar algum grau de proximidade com o presidente.
Orleans Brandão, por sua vez, procurou manter sua associação política com Lula e deixou claro que pretende votar no presidente na eleição nacional. O candidato do MDB chegou a tentar obter o apoio formal de Lula e do PT, mas a direção nacional petista rejeitou essa possibilidade, em parte porque a candidatura de um sobrinho do governador foi interpretada internamente como continuidade de um grupo familiar no comando do estado. Mesmo sem o apoio oficial do partido, entretanto, a proximidade política com Lula continuou sendo utilizada por Orleans em sua comunicação eleitoral.
A própria Justiça Eleitoral acabou produzindo decisões diferentes sobre situações relacionadas ao uso da imagem e à menção a Lula. Em um primeiro episódio, a publicação de Washington Oliveira foi retirada por ser considerada uma associação eleitoral inadequada entre Lula e Orleans, enquanto, posteriormente, uma decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão negou pedido de Felipe Camarão para impedir que Orleans mencionasse Lula em sua propaganda. A diferença foi explicada pelo conteúdo das peças analisadas, já que, no segundo caso, não havia aparição, gravação, entrevista ou pronunciamento do presidente no material questionado.
Lula lidera no Maranhão e sua imagem virou ativo eleitoral
A importância dessa disputa pode ser compreendida também pelos números da eleição presidencial no estado. Pesquisa Quaest divulgada em agosto mostrou Lula com 58% das intenções de voto no primeiro cenário analisado no Maranhão, enquanto Flávio Bolsonaro aparecia com 20%, resultado que evidencia o peso eleitoral do presidente entre os maranhenses. Portanto, associar uma candidatura estadual à imagem de Lula pode representar um ativo relevante em uma eleição na qual a identificação com o presidente tem potencial para influenciar parte significativa do eleitorado.
É justamente nesse ponto que aparece o dilema enfrentado pelo PT estadual: preservar a identidade da candidatura de Felipe Camarão ou permitir que outros candidatos da base política utilizem a popularidade de Lula para ampliar suas próprias chances. Patrícia Macieira defendeu publicamente uma postura mais abrangente e argumentou que o presidente deveria ser visto como uma liderança maior do que a própria estrutura partidária, enquanto setores ligados à candidatura petista adotaram uma interpretação mais restritiva. Na avaliação da dirigente, a judicialização da disputa poderia produzir pouco ganho eleitoral e ainda aprofundar uma divisão que já vinha sendo observada dentro do partido.
A divergência também mostra como eleições estaduais podem criar situações diferentes das disputas nacionais, sobretudo quando partidos aliados apresentam candidatos concorrentes. No Maranhão, Lula precisa preservar sua capacidade de diálogo com diferentes grupos políticos, ao mesmo tempo em que o PT tenta fortalecer uma candidatura própria ao governo estadual. Por isso, a disputa pela imagem de Lula não deve ser analisada apenas como uma questão jurídica, pois ela também envolve estratégia eleitoral, formação de alianças e o cálculo sobre como transferir a popularidade presidencial para uma eleição local.
Racha no PT pode influenciar a eleição estadual
O cenário se torna ainda mais complexo porque a divisão da base lulista ocorre em uma eleição na qual Eduardo Braide, ex-prefeito de São Luís e candidato do PSD, aparece na liderança das pesquisas para o governo estadual e se declara neutro na disputa presidencial. Enquanto os grupos ligados ao PT e ao MDB disputam o espaço político associado a Lula, Braide tenta ocupar uma posição diferente, evitando vincular sua candidatura diretamente à polarização nacional. O resultado é uma eleição marcada por múltiplas estratégias, na qual a força de Lula no estado pode ser decisiva, mas não necessariamente será convertida automaticamente em votos para o candidato escolhido pelo PT.
Nesse contexto, a disputa por imagem de Lula tornou-se um dos sinais mais evidentes de que a eleição maranhense será influenciada por interesses locais e nacionais ao mesmo tempo. A decisão sobre quem poderá usar fotografias, declarações ou referências ao presidente deverá continuar sendo examinada à luz das regras eleitorais, enquanto o PT precisará administrar uma divisão interna que já ultrapassou as fronteiras da propaganda e chegou à Justiça. Para Lula, o desafio será manter uma base ampla no Maranhão sem necessariamente transformar todas as candidaturas que o apoiam em candidaturas oficiais do PT, uma equação política que poderá ter consequências importantes até a votação de 2026.





