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O clima esquentou entre os ministros antes de sessão no STF sobre mensagens de Daniel Vorcaro

Mensagens trocadas pelo WhatsApp entre os ministros Gilmar Mendes e Kassio Nunes Marques revelaram o nível de tensão existente entre integrantes do Supremo Tribunal Federal antes de uma sessão marcada por divergências e confrontos. O diálogo ocorreu em meio aos desdobramentos relacionados às mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e envolveu cobranças sobre a atuação de ministros em processos relacionados ao caso. A troca de mensagens veio a público nesta quarta-feira, 16 de setembro de 2026, e mostrou que as divergências ultrapassaram os debates realizados oficialmente no tribunal.

Em determinado momento da conversa, Gilmar Mendes cobrou que Nunes Marques deixasse processos e também questionou a situação financeira do colega. Entre as mensagens divulgadas, o ministro escreveu “assumam que estão ferrados e saiam dos processos” e, na sequência, utilizou a expressão “abram as contas”. Nunes Marques respondeu pedindo respeito e afirmou que aquele tipo de abordagem não correspondia à postura que esperava de um colega de Corte.

A discussão prosseguiu com novas mensagens de Gilmar, que voltou a cobrar que Nunes Marques apresentasse suas contas antes de participar de julgamentos relacionados ao caso. O ministro respondeu que não teria problemas em prestar esclarecimentos e afirmou que fazia isso havia 15 anos, desde que ingressou na magistratura. A conversa também envolveu familiares de Nunes Marques, depois que mensagens atribuídas a Vorcaro passaram a ser relacionadas a pessoas próximas ao ministro.

Troca de mensagens aconteceu antes de julgamento

A conversa entre os ministros ocorreu em 8 de setembro, mesmo dia em que a Segunda Turma do STF analisou um processo relacionado ao afastamento de Andrei Rodrigues do cargo de diretor-geral da Polícia Federal. Segundo as informações divulgadas, Gilmar Mendes estava na Itália quando enviou as mensagens a Nunes Marques, depois de acompanhar a movimentação envolvendo o julgamento. A cronologia dos votos também foi mencionada na discussão, porque Gilmar interpretou a sequência como possível articulação entre integrantes da Corte.

De acordo com a versão atribuída a Gilmar Mendes, ele pediu vista do processo às 10h01, enquanto Luiz Fux apresentou seu voto às 10h04 e Nunes Marques registrou o próprio voto às 10h06. A proximidade entre os horários foi utilizada pelo ministro para questionar se havia ocorrido algum tipo de combinação anterior entre os colegas. As mensagens, portanto, não ficaram restritas a questionamentos sobre o conteúdo dos processos, mas também envolveram a forma como os ministros estariam atuando dentro da Segunda Turma.

Na conversa, Nunes Marques reagiu diretamente às cobranças de Gilmar e pediu que o colega não o procurasse daquela maneira. A resposta “Me respeite Gilmar. Isso não é postura” foi seguida por outra manifestação na qual o ministro afirmou que não conversaria com quem não o respeitasse. Depois disso, Gilmar voltou a insistir para que Nunes Marques apresentasse suas contas antes de participar de determinadas decisões relacionadas ao caso.

Vorcaro e as suspeitas mencionadas nas mensagens

A troca de mensagens ocorreu em um momento de forte repercussão das informações extraídas do celular de Daniel Vorcaro. O material atribuído ao empresário passou a ser analisado em diferentes frentes e trouxe referências a ministros do STF, familiares de integrantes da Corte e outras pessoas relacionadas ao sistema de Justiça. As menções deram origem a questionamentos públicos e também passaram a fazer parte das discussões internas entre os próprios ministros.

Entre os pontos citados nas reportagens está uma referência a um suposto pagamento mensal de R$ 500 mil ao advogado Kevin Marques, filho de Nunes Marques. A informação foi associada às mensagens encontradas no material atribuído a Vorcaro, mas Nunes Marques negou que o filho tenha prestado serviços ou recebido qualquer valor do Banco Master. Portanto, a existência de uma referência em mensagens não equivale, por si só, à comprovação de que o pagamento tenha ocorrido.

Gilmar Mendes também questionou a atuação de outros ministros em relação às informações provenientes do celular de Vorcaro. Segundo as reportagens, o ministro levantou dúvidas sobre a atuação de André Mendonça e afirmou que determinados elementos envolvendo colegas e familiares estariam sendo tratados de maneira diferente. Essas são alegações atribuídas a Gilmar Mendes e fazem parte do conteúdo da troca de mensagens, não constituindo, por si mesmas, uma comprovação independente das acusações mencionadas.

Tensão chega às sessões do Supremo

A troca entre Gilmar Mendes e Nunes Marques ganhou relevância em um cenário no qual outras divergências entre ministros também passaram a ser expostas durante sessões do STF. Na terça-feira, 15 de setembro, o plenário analisou a abertura de investigação envolvendo Alexandre de Moraes, em uma sessão que teve discussões entre integrantes da Corte e terminou com pedido de vista apresentado por Flávio Dino. Nunes Marques declarou-se impedido de participar daquela votação e afirmou que nunca havia julgado processos relacionados ao Banco Master nem trocado mensagens com Vorcaro.

A situação envolvendo os ministros também teve um desdobramento direto no relacionamento pessoal entre Gilmar e Nunes Marques. Depois da troca de mensagens, Nunes Marques bloqueou Gilmar no WhatsApp, segundo relatos divulgados pelas reportagens que tiveram acesso às informações. A última mensagem enviada pelo decano não teria sido lida pelo colega, indicando que o conflito provocado pela conversa permaneceu mesmo depois do encerramento daquele diálogo.

As mensagens agora divulgadas acrescentam uma nova dimensão às divergências que vêm sendo observadas no STF durante os desdobramentos relacionados ao Banco Master e ao conteúdo atribuído a Vorcaro. O episódio mostra que parte dos conflitos ocorreu em conversas privadas entre ministros, enquanto outras divergências acabaram sendo expostas durante sessões públicas da Corte. A divulgação do diálogo também colocou novamente em evidência questionamentos sobre impedimentos, prestação de contas, relações familiares e a atuação de magistrados em processos que possam envolver pessoas próximas.

A sequência dos acontecimentos ainda deverá ser acompanhada conforme novas informações sobre o conteúdo das mensagens atribuídas a Vorcaro sejam analisadas pelos órgãos competentes. No caso específico da conversa entre Gilmar Mendes e Nunes Marques, os diálogos registram acusações e respostas entre os ministros, mas as alegações feitas durante a troca precisam ser diferenciadas de fatos comprovados por documentos ou decisões oficiais. O episódio permanece inserido em uma crise interna do STF que vem sendo marcada por divergências públicas, pedidos de vista, declarações de impedimento e discussões sobre a atuação de integrantes da própria Corte.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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