O Governo Lula está de olho na eleição dos EUA para dar os próximos passos

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acompanha as eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, marcadas para esta terça-feira, 3 de novembro de 2026, antes de definir os próximos passos da relação bilateral com Washington. A avaliação de integrantes do governo é que o resultado poderá indicar o espaço político que Donald Trump terá para conduzir sua agenda e, consequentemente, influenciar negociações comerciais e diplomáticas com o Brasil. O cenário mantém parte das conversas em compasso de espera, enquanto Brasília observa a disputa pelo controle do Congresso norte-americano.
A expectativa do Planalto está relacionada ao impacto que uma eventual mudança na composição da Câmara dos Representantes e do Senado poderá provocar sobre a capacidade de Trump de aprovar medidas e conduzir sua política externa. Atualmente, o Partido Republicano controla as duas Casas, mas os democratas tentam conquistar maioria em uma ou em ambas. Para o governo brasileiro, a definição desse equilíbrio político ajudará a compreender quais interlocutores terão força para influenciar decisões em Washington nos próximos meses.
A reportagem publicada pelo Metrópoles em 2 de novembro, assinada por Carinne Souza, informou que interlocutores do governo Lula consideram o resultado das midterms um possível termômetro para o relacionamento entre os dois países. A relação bilateral atravessa um período de tensão desde a imposição de tarifas sobre produtos brasileiros pelo governo norte-americano. Além das divergências comerciais, episódios envolvendo integrantes da família Bolsonaro também passaram a ser acompanhados pelo Palácio do Planalto como fatores de desgaste diplomático.
Eleições americanas podem alterar o ambiente político em Washington
As chamadas midterms renovam todos os 435 assentos da Câmara dos Representantes e 35 das 100 cadeiras do Senado, além de envolverem eleições para governador em 36 estados. A votação funciona como uma avaliação política do presidente durante a metade de seu mandato e pode modificar a relação de forças entre governo e oposição no Congresso. Embora não escolha diretamente o presidente, o resultado influencia a capacidade de Trump de aprovar projetos, negociar recursos e sustentar sua agenda legislativa.
Se os democratas conquistarem o controle de uma ou das duas Casas, Trump poderá enfrentar mais obstáculos para aprovar propostas e confirmar prioridades de seu governo. A oposição também terá condições de ampliar a fiscalização sobre a administração, convocar autoridades, solicitar documentos e conduzir investigações parlamentares. Esse novo cenário não retiraria automaticamente os poderes presidenciais sobre comércio e política externa, mas poderia aumentar a pressão política sobre a Casa Branca e modificar o ambiente em que as decisões são tomadas.
Para Brasília, a composição do Congresso norte-americano é relevante porque diferentes grupos políticos podem influenciar o debate sobre temas de interesse brasileiro. Integrantes do governo avaliam que uma bancada democrata mais forte poderia abrir espaço para discussões sobre meio ambiente e regulação das grandes empresas de tecnologia, assuntos que encontram menos afinidade na agenda conservadora de Trump. Ainda assim, uma eventual mudança na composição legislativa não significaria, por si só, uma alteração imediata da posição oficial dos Estados Unidos em relação ao Brasil.
Tarifaço e negociações comerciais continuam entre os principais impasses
Um dos assuntos mais importantes da agenda bilateral é a negociação sobre as tarifas impostas por Washington a produtos brasileiros. As conversas foram retomadas em agosto, depois de uma ligação entre Lula e Trump, mas perderam ritmo durante o período de incerteza provocado pela eleição presidencial brasileira. Na avaliação de integrantes do governo, a administração norte-americana aguardava a definição de quem ocuparia o Palácio do Planalto antes de avançar em decisões politicamente sensíveis.
Com a reeleição de Lula, a expectativa brasileira passou a considerar também o resultado das eleições legislativas dos Estados Unidos e seus efeitos sobre a margem de atuação de Trump. O governo busca entender se o presidente norte-americano continuará contando com apoio suficiente no Congresso para sustentar sua agenda ou se terá de negociar mais com a oposição. Essa definição poderá influenciar o ritmo das conversas sobre tarifas e outros assuntos econômicos, embora as decisões comerciais também dependam de competências próprias do Executivo norte-americano.
O impasse não significa que todos os canais diplomáticos estejam interrompidos, mas indica que parte das decisões aguarda um cenário político mais claro. Além das tarifas, Brasil e Estados Unidos têm interesses em comércio, cooperação ambiental, minerais críticos, terras raras e combate ao crime organizado. A retomada dessas pautas dependerá de negociações entre os governos e da disposição política de Washington, sem que o resultado das midterms seja suficiente para resolver automaticamente as divergências acumuladas.
Crise diplomática inclui tensões políticas e caso Flávio Bolsonaro
Outro elemento observado pelo Planalto é a relação de integrantes da família Bolsonaro com autoridades e representantes políticos norte-americanos. A tensão ganhou novos contornos depois que Flávio Bolsonaro deixou o Brasil e chegou a Miami, episódio que passou a ser acompanhado pela diplomacia brasileira devido às circunstâncias de sua saída e às repercussões políticas nos Estados Unidos. O governo Lula procura evitar que esse caso seja incorporado às negociações institucionais entre os dois países ou provoque novos atritos entre Brasília e Washington.
A estratégia do governo brasileiro é preservar os canais oficiais e aguardar sinais mais definidos da política norte-americana depois da votação. A eleição de 3 de novembro poderá indicar como ficará a distribuição de forças no Congresso, mas não determinará sozinha as decisões de Trump sobre tarifas, diplomacia ou relações com o Brasil. Por isso, o Planalto acompanha o resultado como uma variável importante para organizar os próximos movimentos, enquanto tenta manter o diálogo e evitar que as divergências políticas comprometam toda a agenda bilateral.





