Se os Democratas retomarem o controle do Congresso Nacional nos EUA, Trump terá dificuldades para governar

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, poderá enfrentar dificuldades maiores para conduzir seu governo caso o Partido Democrata conquiste a maioria no Congresso nas eleições legislativas de meio de mandato, conhecidas como midterms. A possibilidade foi analisada pelo cientista político Pedro Costa Júnior, doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e especialista em política norte-americana, em entrevista à CNN 360º. Segundo o pesquisador, uma eventual retomada democrata da Câmara dos Representantes e do Senado poderá transformar Trump em um presidente “pato manco”, expressão usada para definir um governante que permanece no cargo, mas perde capacidade de avançar sua agenda política.
A avaliação considera que Trump iniciou seu segundo mandato em uma posição institucional favorável, com o Partido Republicano controlando as duas Casas do Congresso e exercendo influência sobre a Suprema Corte. Esse cenário permitiu que o presidente aprovasse diversas propostas de sua agenda nos dois primeiros anos, com menor resistência legislativa e apoio de parlamentares de seu próprio partido. Costa Júnior afirmou que o republicano conseguiu praticamente aprovar tudo o que pretendia nesse período, aproveitando a maioria que os eleitores haviam concedido aos republicanos e a vantagem política construída desde o início da administração.
As eleições de 3 de novembro, portanto, poderão alterar a relação entre a Casa Branca e o Legislativo justamente na segunda metade do mandato presidencial. Se os democratas conquistarem uma ou as duas Casas, terão condições de dificultar a tramitação de projetos, controlar comissões e ampliar a fiscalização sobre decisões do Executivo. O resultado não muda automaticamente o ocupante da Presidência, mas pode reduzir a margem de manobra de Trump até o fim de seu mandato, inclusive em negociações sobre orçamento e prioridades nacionais.
O que significa um presidente virar “pato manco”
A expressão “pato manco”, tradução do termo em inglês lame duck, é utilizada na política dos Estados Unidos para descrever um presidente que continua exercendo suas funções, mas enfrenta limitações políticas por não contar com apoio suficiente no Congresso. A situação pode ocorrer quando o partido de oposição conquista maioria parlamentar e passa a controlar a agenda legislativa, as comissões e instrumentos de fiscalização do governo. Nesse contexto, o presidente mantém os poderes previstos na Constituição, mas encontra mais obstáculos para transformar suas propostas em leis e conseguir apoio para as principais decisões de sua administração.
No caso de Trump, a mudança seria significativa porque os republicanos atualmente possuem maioria tanto na Câmara dos Representantes quanto no Senado. A conquista de uma das Casas pelos democratas já seria suficiente para alterar o funcionamento do Congresso e impor dificuldades à aprovação de iniciativas do governo. Se a oposição assumir o controle das duas, o presidente poderá enfrentar resistência ainda maior, inclusive em temas orçamentários, na aprovação de medidas legislativas e na análise de nomeações para cargos públicos.
Costa Júnior ressaltou que as midterms têm um caráter que vai além das disputas locais, pois funcionam como uma avaliação do desempenho do presidente durante os primeiros dois anos de mandato. Historicamente, as eleições de meio de mandato costumam representar um desafio para o partido que ocupa a Casa Branca, já que eleitores insatisfeitos podem utilizar a votação para modificar o equilíbrio político no Legislativo. O especialista descreveu a eleição como uma espécie de plebiscito sobre a continuidade da governabilidade de Trump, e não apenas como uma série de disputas regionais por cadeiras parlamentares.
Inflação e guerra contra o Irã pressionam a popularidade republicana
Entre os fatores que ajudam a explicar a desaprovação ao presidente, o cientista político destacou a inflação e o envolvimento dos Estados Unidos no conflito armado com o Irã. Trump havia prometido controlar o custo de vida e criticado a administração democrata anterior pelos preços elevados, mas a inflação continuou sendo uma preocupação para os consumidores americanos. A dificuldade de cumprir essa promessa passou a representar um ponto de desgaste para o governo, especialmente porque o custo de vida influencia diretamente o cotidiano das famílias e a avaliação dos eleitores sobre a administração federal.
O segundo fator apontado por Costa Júnior foi a guerra contra o Irã, que contrariou a promessa de Trump de evitar o envolvimento dos Estados Unidos em novos conflitos. De acordo com o especialista, o presidente chegou a afirmar que a operação duraria seis dias, mas o confronto já ultrapassava seis meses e não apresentava uma previsão clara de encerramento. A continuidade da guerra também pressionou os preços da energia e contribuiu para ampliar as preocupações econômicas e políticas em torno da administração republicana, inclusive entre eleitores que apoiaram Trump por sua promessa de reduzir o envolvimento militar no exterior.
A avaliação de Costa Júnior foi divulgada em um momento em que pesquisas indicavam aprovação de aproximadamente 31% para Trump, índice citado na análise como sinal de desgaste de sua popularidade. O desempenho do presidente pode influenciar candidatos republicanos em diferentes estados, sobretudo nas disputas mais equilibradas pela Câmara e pelo Senado. Ainda assim, pesquisas nacionais não determinam sozinhas o resultado das eleições, que depende da votação em cada distrito e estado, das campanhas locais e da participação efetiva dos eleitores.
Disputa legislativa também movimenta sucessão presidencial de 2028
A entrevista também abordou os possíveis efeitos das eleições de meio de mandato sobre a organização interna dos partidos e a disputa presidencial prevista para 2028. No campo republicano, Costa Júnior mencionou o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio como nomes cotados para uma futura candidatura, apontando que a disputa entre os dois poderia provocar divisões dentro da legenda. A eventual perda de cadeiras no Congresso poderá intensificar discussões sobre a liderança do partido e sobre o caminho que os republicanos pretendem seguir depois de Trump.
Entre os democratas, o especialista citou figuras como Alexandria Ocasio-Cortez e Bernie Sanders, embora o partido ainda precise consolidar um nome capaz de representar sua candidatura presidencial. Uma vitória legislativa poderá oferecer aos democratas maior espaço para fiscalizar o governo e apresentar uma agenda alternativa, mas também aumentará a responsabilidade da oposição diante dos eleitores. Para Trump, a composição do Congresso após 3 de novembro será determinante para o ambiente político dos dois últimos anos de seu mandato, mesmo que ele continue ocupando a Casa Branca e mantenha as atribuições constitucionais da Presidência.





