Um dos maiores bancos digitais do Paraguai está enfrentando uma grande crise financeira

A intervenção no Ueno Bank, uma das maiores instituições financeiras digitais do Paraguai, transformou uma crise bancária em um problema político para o presidente Santiago Peña. A instituição, que possui aproximadamente 3 milhões de clientes, entrou em um processo de resolução determinado pelo Banco Central paraguaio depois que seu índice de solvência caiu para menos da metade do mínimo exigido pela legislação. A medida, anunciada em 3 de novembro de 2026, provocou o fechamento das agências, a suspensão dos serviços bancários e deixou milhões de correntistas sem acesso imediato às próprias contas.
A gravidade da situação vai além dos problemas enfrentados pelos clientes, porque o Ueno Bank também administrava centenas de milhões de dólares pertencentes a instituições públicas paraguaias. Entre os recursos envolvidos estão investimentos do Instituto de Previsión Social (IPS), responsável pela previdência e pela assistência à saúde dos trabalhadores, além de valores de outros órgãos governamentais. Dessa maneira, o episódio atingiu diretamente a administração pública e levantou dúvidas sobre os mecanismos de fiscalização utilizados para acompanhar o crescimento da instituição financeira.
A crise também provocou mudanças na cúpula econômica do país, com a renúncia do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, após um pedido do próprio Santiago Peña. A situação ganhou dimensão política porque Carvallo havia comandado anteriormente uma instituição financeira que deu origem ao Ueno, enquanto Peña manteve relações empresariais com o Grupo Vázquez, controlador do banco, até 2025. Embora essas conexões não comprovem irregularidades por si mesmas, elas aumentaram a pressão sobre o governo e ampliaram as cobranças por esclarecimentos sobre a fiscalização da instituição.
Crise no Ueno Bank: entenda por que o Banco Central interveio
A decisão de iniciar o procedimento de resolução foi aprovada por unanimidade pela diretoria do Banco Central do Paraguai em 2 de novembro e anunciada oficialmente no dia seguinte. Segundo a autoridade monetária, ajustes realizados nas demonstrações financeiras durante um processo de regularização revelaram que o índice de solvência do Ueno Bank havia caído para menos de 50% do mínimo exigido pela legislação. Esse indicador mede a capacidade de uma instituição financeira de manter capital suficiente para enfrentar os riscos de suas operações, sendo considerado fundamental para proteger os depositantes e preservar a estabilidade do sistema bancário.
Na prática, a medida colocou a instituição sob controle das autoridades responsáveis pelo procedimento, determinando a suspensão dos serviços e o fechamento das unidades de atendimento. O Banco Central informou que interventores seriam designados para verificar a situação patrimonial do banco, preservar os ativos existentes e organizar as providências necessárias para o tratamento das obrigações financeiras. Além disso, o processo poderá permitir a transferência de depósitos e operações para outras instituições, conforme os mecanismos previstos na legislação paraguaia.
A paralisação provocou preocupação entre os correntistas, que procuraram as agências em busca de informações sobre o dinheiro mantido nas contas. Em Assunção, capital do Paraguai, foram registradas filas e manifestações de clientes que tentavam obter esclarecimentos sobre a suspensão dos serviços, enquanto medidas de segurança foram adotadas nas unidades bancárias. A situação afetou também aposentados que recebem benefícios por meio da instituição, embora o governo tenha informado que os pagamentos previdenciários daquele mês seriam preservados por meio de recursos mantidos fora do banco.
Governo de Santiago Peña enfrenta pressão por dinheiro público e vínculos empresariais
Um dos aspectos mais preocupantes da crise envolve os recursos públicos administrados pelo Ueno Bank, estimados entre US$ 800 milhões e US$ 850 milhões. O Instituto de Previsión Social mantinha aproximadamente US$ 355 milhões em investimentos na instituição, incluindo certificados de depósito e títulos financeiros, além de utilizar seus serviços para pagamentos de benefícios a milhares de aposentados. Também existiam recursos de outras entidades públicas, como a Administração Nacional de Eletricidade e a usina binacional de Itaipu, ampliando a dimensão do problema para diferentes setores da administração paraguaia.
A situação ganhou repercussão política devido ao histórico de relacionamento entre o presidente Santiago Peña e o Grupo Vázquez, controlador do banco. Antes de assumir a Presidência, Peña teve participação empresarial no conglomerado e, segundo informações divulgadas pela imprensa, vendeu seus investimentos em abril de 2025, enquanto o vínculo com o grupo foi encerrado naquele período. Outro ponto questionado envolve Carlos Carvallo, que presidia o Banco Central desde 2023, mas anteriormente havia comandado a instituição financeira que deu origem ao Ueno Bank.
Diante da repercussão, Peña solicitou a saída de Carvallo e defendeu a adoção de medidas para proteger os depositantes e os recursos públicos envolvidos. Paralelamente, o Ministério Público paraguaio iniciou uma investigação criminal após receber uma denúncia apresentada pelo Banco Central, e o fundador Miguel Vázquez e outros dirigentes passaram a responder às medidas determinadas pelas autoridades judiciais. A crise também levou parlamentares da oposição a anunciarem iniciativas para discutir um possível julgamento político do presidente e do vice-presidente Pedro Alliana, aumentando a pressão sobre o governo.
Clientes terão garantia limitada enquanto investigação avança no Paraguai
Apesar da gravidade do episódio, os depósitos mantidos no Ueno Bank contam com a proteção do Fundo de Garantia de Depósitos, que cobre até 75 salários mínimos mensais por pessoa ou empresa em cada instituição financeira. O limite corresponde a 228,3 milhões de guaranis, aproximadamente US$ 38,6 mil, e estimativas divulgadas pelas autoridades indicam que cerca de 97% dos depositantes estão dentro dessa faixa de cobertura. Entretanto, os clientes com valores superiores ao limite dependerão da avaliação dos ativos disponíveis e dos mecanismos de recuperação previstos durante o procedimento de resolução.
A crise representa um teste importante para o sistema financeiro paraguaio e para a imagem do país diante de investidores nacionais e estrangeiros, especialmente porque o Ueno Bank havia conquistado milhões de clientes em poucos anos de expansão. Embora o Banco Central considere o episódio uma situação específica e afirme que as demais instituições continuam operando normalmente, a recuperação dos recursos, a apuração das responsabilidades e a proteção dos depositantes serão fundamentais para restabelecer a confiança no setor bancário. Além disso, a maneira como o governo conduzirá a crise poderá influenciar a percepção da população e dos investidores sobre a transparência das instituições e a fiscalização do sistema financeiro do Paraguai.





