Alexandre de Moraes comentou sobre as anotações que estavam no iPhone do ex-banqueiro Daniel Vorcaro

O ministro Alexandre de Moraes afirmou que a Polícia Federal presumiu que anotações encontradas no bloco de notas do iPhone de Daniel Vorcaro correspondiam a mensagens de WhatsApp enviadas diretamente a ele. A declaração consta da manifestação apresentada pelo ministro ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, antes da sessão que analisará o relatório elaborado no caso envolvendo o ex-banqueiro. Segundo Moraes, a conclusão teria sido construída a partir da proximidade entre os horários das anotações e de conversas identificadas no aparelho de Vorcaro.
De acordo com a defesa apresentada pelo ministro, 52 anotações foram analisadas no aparelho apreendido durante a Operação Compliance Zero, mas somente cinco delas teriam correspondência com diálogos identificados pela perícia. Dessa forma, Moraes sustenta que 47 registros não foram localizados em nenhuma conversa de WhatsApp recuperada do celular de Vorcaro. O argumento é utilizado para questionar a metodologia empregada na associação entre os textos armazenados no bloco de notas e as mensagens que teriam sido encaminhadas ao ministro.
Moraes também contestou a interpretação segundo a qual os horários registrados nos arquivos seriam suficientes para determinar quem recebeu os conteúdos. Na manifestação, o ministro afirma que a relação teria sido estabelecida por uma estimativa temporal, sem que existisse uma mensagem recuperada contendo o texto atribuído a ele como destinatário. A discussão ocorre em meio à análise do relatório da PF que reuniu informações extraídas do celular de Vorcaro e apontou supostas interações entre o empresário e integrantes de diferentes setores.
Anotações do iPhone são questionadas por Moraes
Segundo Alexandre de Moraes, a principal fragilidade estaria na transformação de anotações particulares do bloco de notas em supostas mensagens enviadas por aplicativo. O ministro argumenta que a simples existência de um texto no aparelho de Vorcaro não comprovaria, por si só, que aquele conteúdo tenha sido encaminhado a determinado destinatário. Para sustentar essa posição, ele destacou a diferença entre os registros efetivamente encontrados em conversas e aqueles que permaneceram somente armazenados no dispositivo.
A perícia relacionada ao celular de Vorcaro identificou diferentes arquivos, capturas de tela e registros que foram utilizados para tentar reconstruir a sequência das comunicações. Em análises anteriores, especialistas explicaram que a organização dos dados extraídos de um aparelho não reproduz necessariamente a forma como os arquivos aparecem para o usuário durante o uso cotidiano do telefone. Por isso, a identificação do destinatário de uma mensagem pode depender da combinação de diferentes elementos técnicos, como bancos de dados, metadados e registros dos aplicativos.
O próprio histórico do caso mostra que as imagens armazenadas no celular foram utilizadas para reconstruir possíveis conversas de visualização única. Segundo informações divulgadas anteriormente, Vorcaro teria escrito textos no bloco de notas, feito capturas de tela e enviado algumas delas por aplicativos de mensagens, enquanto as imagens permaneciam guardadas na memória do aparelho. Esse procedimento permitiu que parte do conteúdo fosse recuperada mesmo depois de a mensagem original deixar de estar disponível no aplicativo.
Relatório da PF e a interpretação das mensagens
O relatório produzido pela Polícia Federal reuniu mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro e outros elementos encontrados no aparelho do ex-banqueiro. Entre os registros divulgados estão conversas que indicariam uma suposta interlocução com Alexandre de Moraes, embora o conteúdo das respostas atribuídas ao ministro não tenha sido recuperado integralmente. A própria análise publicada pela CNN apontou que as respostas de Moraes apareciam associadas a mecanismos de visualização única, o que impediu a identificação direta do conteúdo delas.
Em sua manifestação, porém, Moraes afirma que não existe comprovação técnica suficiente para transformar todos os textos encontrados no bloco de notas em mensagens efetivamente encaminhadas a ele. O ministro sustenta que a associação entre os registros teria sido feita com base em uma interpretação dos horários, e não pela recuperação de cada conversa completa com identificação inequívoca do destinatário. Com isso, a validade dessa metodologia passou a ocupar um ponto central da contestação apresentada ao STF.
A controvérsia também envolve a maneira como os arquivos foram organizados após a extração forense do celular. Especialistas ouvidos pela CNN já haviam explicado que arquivos diferentes podem aparecer agrupados em determinadas pastas por critérios técnicos utilizados pelos programas de perícia, sem que isso represente necessariamente uma relação entre os respectivos conteúdos. Dessa forma, a interpretação dos arquivos depende do conjunto de evidências e não apenas da localização de uma imagem ou anotação dentro da estrutura digital criada pela extração.
O que está em discussão no STF
A manifestação de Moraes foi entregue em um momento decisivo para o caso, já que o Supremo Tribunal Federal analisa o relatório produzido a partir dos dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro. O procedimento foi determinado pelo ministro André Mendonça, que atuava como relator de questões relacionadas ao caso Banco Master antes de o processo passar à relatoria de Edson Fachin. Agora, cabe ao STF avaliar os argumentos apresentados e decidir os próximos passos em relação aos elementos reunidos no relatório.
Moraes afirma que as conclusões apresentadas contra ele não demonstram, de maneira objetiva, que as anotações tenham sido enviadas ao seu número ou que todos os conteúdos identificados tenham correspondência com conversas mantidas pelo ministro. A contestação procura separar os textos efetivamente recuperados em aplicativos das anotações que permaneceram armazenadas no aparelho de Vorcaro. O debate deverá envolver justamente a força probatória desses elementos e os critérios utilizados para estabelecer a ligação entre os registros digitais e seus possíveis destinatários.
O caso ganhou relevância porque o relatório da PF também reúne outros elementos relacionados à suposta proximidade entre Vorcaro e Moraes, incluindo mensagens, encontros e referências a serviços contratados pelo entorno do ex-banqueiro. Ao mesmo tempo, a defesa do ministro sustenta que essas informações precisam ser examinadas individualmente e dentro do contexto técnico em que foram obtidas. A análise do STF, portanto, deverá considerar tanto a origem dos dados quanto a metodologia empregada para relacionar cada registro às pessoas mencionadas no relatório.
A discussão sobre o bloco de notas representa apenas uma das partes da controvérsia envolvendo os dados extraídos do aparelho de Vorcaro, mas ganhou destaque pela quantidade de registros cuja correspondência com conversas não teria sido identificada. Moraes utiliza esse ponto para questionar a conclusão de que os textos poderiam ser tratados automaticamente como mensagens enviadas a ele. O resultado da análise do STF poderá definir se esses elementos serão considerados suficientes para justificar novas medidas ou se deverão ser descartados por falta de comprovação técnica adequada.





