A Casa Branca ainda não divulgou nenhum comunicado reconhecendo publicamente a vitória de Lula

Até a tarde desta segunda-feira (26), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ainda não havia se pronunciado publicamente sobre a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial brasileira. O silêncio chamou atenção porque Lula já havia recebido manifestações de reconhecimento de líderes internacionais de diferentes posições políticas, inclusive de representantes da direita latino-americana. A ausência de uma declaração de Trump ocorreu depois da derrota de Flávio Bolsonaro, candidato do PL que mantinha relações políticas com o grupo do presidente americano.
Durante os dois turnos da eleição brasileira, Trump evitou declarar apoio explícito a Lula ou a Flávio Bolsonaro. Questionado sobre a disputa, o republicano afirmou que estava acompanhando o processo eleitoral, sem indicar qual candidato preferia ver na Presidência do Brasil. Depois da confirmação do resultado, essa postura de neutralidade continuou, enquanto parlamentares democratas americanos e lideranças estrangeiras se manifestaram sobre a reeleição do petista.
O episódio ganhou importância diante das relações construídas entre Trump e a família Bolsonaro, além das divergências entre o governo americano e a administração Lula. Antes da eleição, o presidente dos Estados Unidos recebeu Flávio e Eduardo Bolsonaro na Casa Branca, em uma reunião acompanhada de perto por aliados do ex-presidente brasileiro. A vitória de Lula frustrou a expectativa de setores bolsonaristas que defendiam uma aproximação política mais estreita entre Brasília e Washington caso Flávio assumisse o governo federal.
Trump rompe tradição de reconhecimento rápido
A demora de Trump contrastou com a postura adotada pelo governo americano em eleições presidenciais brasileiras anteriores. Em 2022, Joe Biden parabenizou Lula pela vitória e classificou o processo eleitoral como livre, justo e confiável, antes mesmo de Jair Bolsonaro reconhecer formalmente a derrota. Em eleições anteriores, presidentes americanos também haviam manifestado reconhecimento ao resultado brasileiro, incluindo Trump, que telefonou para Bolsonaro na noite da vitória do então candidato em 2018.
A ausência de uma manifestação imediata foi considerada relevante por especialistas em relações internacionais, que apontaram diferenças entre a reação de Washington e a de outros governos. Christopher Sabatini, pesquisador da Chatham House, avaliou que o silêncio poderia refletir frustração política com a derrota de um candidato associado à família Bolsonaro. Na análise do especialista, Trump havia demonstrado interesse em ampliar a influência de aliados ideológicos na América Latina, e o resultado brasileiro contrariou essa expectativa.
A eleição também interrompeu uma sequência de vitórias de políticos de direita ou próximos de Trump em diferentes países latino-americanos. Desde o retorno do republicano à Casa Branca, candidatos e governos alinhados a parte de sua agenda conquistaram espaço na região, fortalecendo a expectativa de maior convergência política. A reeleição de Lula, no entanto, manteve no comando da maior economia latino-americana um presidente que defende uma política externa independente da estratégia americana.
Relação com a família Bolsonaro aumenta o peso do silêncio
A aproximação entre Trump e os Bolsonaro foi reforçada por contatos políticos e decisões relacionadas à segurança pública. Flávio e Eduardo Bolsonaro estiveram na Casa Branca, e a classificação do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas estrangeiras pelo governo americano se tornou um dos assuntos de interesse do grupo brasileiro. Flávio defendia essa medida, enquanto Lula manifestava preocupação com possíveis consequências para a soberania nacional e para a atuação do Brasil no combate ao crime organizado.
Durante a campanha, Trump também adotou medidas comerciais que afetaram produtos brasileiros e criticou a condução das relações com o governo Lula. A imposição de tarifas sobre mercadorias do Brasil ampliou as tensões entre os dois países e foi acompanhada por divergências políticas sobre comércio, segurança e diplomacia. Nesse contexto, a derrota de Flávio impediu que Washington passasse a contar com um presidente brasileiro que havia defendido maior aproximação com as prioridades de Trump.
O silêncio da Casa Branca, porém, não significava necessariamente uma ruptura diplomática ou a adoção de medidas contra o governo reeleito. Até aquele momento, o que estava confirmado era a ausência de reconhecimento público por parte de Trump, enquanto os contatos institucionais entre os dois países continuavam relevantes. A posição oficial americana sobre a relação com o governo Lula dependeria das manifestações e das decisões que a administração Trump adotasse nos dias seguintes.
Democratas parabenizam Lula enquanto aliados de Trump questionam o resultado
Enquanto Trump não se pronunciava, representantes do Partido Democrata reagiram publicamente à vitória brasileira. O deputado Joaquín Castro parabenizou os brasileiros pela participação democrática, e o senador Bernie Sanders classificou a reeleição de Lula como extraordinária. O governador da Califórnia, Gavin Newsom, também publicou uma mensagem de apoio ao Brasil e a quem defende a democracia e a proteção ambiental.
Em outra frente, pessoas próximas ao presidente americano passaram a questionar o resultado eleitoral brasileiro. Martin de Luca, advogado ligado a Trump, publicou uma mensagem levantando suspeitas sobre a eleição e sugerindo que a vitória de Lula não seria reconhecida, enquanto Elon Musk compartilhou a publicação. Donald Trump Jr., filho do presidente americano, também divulgou críticas relacionadas ao processo eleitoral, ampliando a pressão política em torno do resultado.
Na semana anterior ao segundo turno, o Departamento de Estado americano já havia evitado assumir um compromisso explícito sobre o reconhecimento antecipado do resultado brasileiro, ao responder a questionamentos de congressistas democratas. A pasta declarou que os Estados Unidos apoiavam o direito dos brasileiros a um processo eleitoral livre e justo e que continuariam dialogando com a população, o setor privado e o governo eleito. Mesmo após a conclusão da votação, a falta de uma manifestação direta de Trump manteve em aberto como seria conduzida a relação política com Lula no novo mandato.
A reeleição do petista colocou Washington diante da continuidade de um governo com o qual mantém divergências em determinadas áreas, mas com o qual também possui interesses comerciais e estratégicos. A relação entre os países envolve comércio, investimentos, segurança e cooperação diplomática, temas que não dependem exclusivamente da proximidade ideológica entre os presidentes. Até a tarde de segunda-feira, a principal questão continuava sendo quando Trump reconheceria publicamente a vitória de Lula e quais sinais daria sobre os próximos passos da relação bilateral.





