Após a derrota para Flávio Bolsonaro no 1º turno, Lula mudará seus discursos em relação ao STF

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva mudou a estratégia eleitoral depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro na disputa pela Presidência da República. Segundo a colunista Marcela Mattos, do UOL, o petista decidiu adotar uma postura mais crítica em relação ao Supremo Tribunal Federal e às suspeitas envolvendo alguns integrantes da Corte. A mudança deverá fazer parte da campanha até o segundo turno, marcado para 25 de outubro.
A nova orientação surgiu depois de uma avaliação interna de que Lula acabou sendo associado politicamente ao STF e, especialmente, a ministros que passaram a enfrentar questionamentos públicos. Em reunião com aliados na segunda-feira, dia 5, o presidente afirmou que existia uma situação de “promiscuidade” na Suprema Corte e sustentou que ele próprio deveria ser apresentado como candidato antissistema. A declaração representou uma mudança importante no discurso adotado anteriormente pela campanha petista.
De acordo com a reportagem de Marcela Mattos, aliados de Lula procuraram o presidente do STF, Edson Fachin, para avisar que o tom das críticas deverá aumentar durante a campanha. A preocupação foi evitar que as novas declarações fossem interpretadas como um ataque à instituição, já que a estratégia pretende questionar comportamentos e decisões de determinados ministros. Dessa forma, Fachin foi informado antecipadamente sobre a mudança de postura do candidato à reeleição.
Lula aumenta críticas ao Supremo no segundo turno
A campanha petista passou a considerar que a crise envolvendo o STF produziu um desgaste eleitoral para Lula, mesmo sem participação direta do presidente nos fatos investigados. Segundo essa avaliação, parte do eleitorado passou a enxergar uma proximidade entre o presidente e ministros da Corte, principalmente Alexandre de Moraes, cuja atuação também entrou no debate político. Por isso, uma das prioridades passou a ser separar a imagem de Lula das controvérsias envolvendo integrantes do Supremo.
O movimento ocorre em um momento de forte pressão política sobre o STF após a eleição do novo Congresso Nacional, que terá uma presença maior de parlamentares alinhados à direita. Nos últimos dias, integrantes da campanha de Flávio Bolsonaro ampliaram as críticas à Corte e passaram a defender mudanças que poderiam limitar poderes dos ministros. O cenário fez com que o Supremo entrasse de maneira ainda mais evidente na disputa eleitoral pelo segundo turno.
A estratégia de Lula também deverá incluir a defesa de uma reforma do Judiciário, tema que já vinha sendo mencionado pelo presidente antes da mudança de tom. Entre as propostas apresentadas está a criação de mandatos para ministros do STF, alterando o atual modelo de permanência dos integrantes da Corte. O presidente do PT, Edinho Silva, também afirmou que Lula pretende discutir a retirada do presidente da República da prerrogativa de indicar ministros para o Supremo.
Reforma do Judiciário entra no discurso de Lula
A possibilidade de modificar o sistema de escolha dos ministros passou a ocupar espaço maior nas discussões da campanha porque o tema permite que Lula apresente uma posição crítica sem defender diretamente o enfraquecimento do STF. A proposta anunciada por Edinho Silva prevê que a escolha dos integrantes da Corte deixe de ficar exclusivamente vinculada ao presidente da República e tenha participação da sociedade civil. Com isso, o PT tenta apresentar uma alternativa institucional para responder às críticas sobre a composição do tribunal.
Lula já havia demonstrado preocupação com a crise interna do Supremo antes do primeiro turno, quando afirmou ter conversado com Fachin em diferentes ocasiões sobre os conflitos existentes dentro da Corte. Na ocasião, o presidente disse que havia cobrado do chefe do tribunal uma atuação para impedir que os ministros permanecessem em confronto e afirmou que a crise poderia comprometer a credibilidade da instituição. Agora, a postura passou a ser incorporada de forma mais direta à estratégia eleitoral do segundo turno.
A mudança também acontece depois de uma sequência de críticas de diferentes setores políticos ao funcionamento do STF, incluindo questionamentos sobre decisões individuais e sobre a atuação dos ministros em temas eleitorais e políticos. Paralelamente, o presidente do tribunal tem buscado preservar a estabilidade institucional e manter diálogo com diferentes grupos do Congresso. Nesse ambiente, a decisão de Lula de elevar as críticas deverá aumentar a pressão sobre Fachin e sobre a própria Corte durante a campanha.
Lula tenta se afastar da crise do STF
A nova estratégia eleitoral busca, portanto, corrigir uma associação que passou a ser considerada prejudicial dentro da campanha de Lula. Ao assumir críticas mais duras contra determinados ministros e defender mudanças na estrutura do Judiciário, o petista pretende demonstrar independência em relação ao Supremo e disputar com Flávio Bolsonaro o discurso de oposição ao chamado sistema. A estratégia será colocada à prova nas próximas semanas, quando os dois candidatos intensificarão a busca pelos votos do segundo turno.
O aviso enviado a Edson Fachin mostra que a campanha de Lula pretende diferenciar críticas individuais à atuação de ministros de uma contestação à existência ou à legitimidade do Supremo Tribunal Federal. Ainda assim, a mudança deverá ampliar a presença do Judiciário no debate eleitoral e colocar a relação entre Executivo e STF novamente no centro das discussões políticas. Até 25 de outubro, a expectativa é que Lula mantenha o novo discurso enquanto tenta reduzir o impacto eleitoral provocado pela associação com a crise que atingiu a Corte.





