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Flávio disse que dinheiro de Vorcaro foi todo investido no filme, mas PF mostra outra versão

O relatório da Polícia Federal sobre o financiamento de Dark Horse trouxe novos elementos para a investigação envolvendo o filme sobre Jair Bolsonaro e a atuação do senador Flávio Bolsonaro nas negociações com Daniel Vorcaro. Segundo os investigadores, movimentações financeiras analisadas durante a apuração levantaram dúvidas sobre a origem e a destinação de parte dos recursos utilizados na produção. Com isso, a versão apresentada anteriormente por Flávio passou a ser confrontada com informações financeiras reunidas pela PF e disponibilizadas no âmbito das investigações.

A apuração ganhou força depois que documentos e mensagens revelaram a participação de Flávio nas tratativas para obter recursos destinados ao longa-metragem. Inicialmente, o senador havia negado ter relação com Vorcaro, mas posteriormente reconheceu que procurou o empresário para buscar financiamento para o projeto e pediu desculpas pela declaração anterior. Além disso, Flávio afirmou em diferentes momentos que os recursos teriam sido utilizados integralmente na realização do filme e que a responsabilidade pela prestação de contas caberia à produtora.

Agora, o relatório da PF acrescenta uma camada financeira à investigação, especialmente em relação ao fundo Havengate, nos Estados Unidos, que recebeu parte dos valores destinados ao projeto. Os investigadores apontaram movimentações e circunstâncias consideradas relevantes para esclarecer se os recursos tiveram efetivamente a finalidade declarada e se houve outras destinações. Embora a investigação ainda esteja em andamento, os dados passaram a ser utilizados para questionar a compatibilidade entre a narrativa apresentada pelos envolvidos e o fluxo financeiro identificado pelos investigadores.

Relatório da PF sobre Dark Horse amplia dúvidas sobre o financiamento

Um dos principais pontos levantados pela Polícia Federal envolve o volume de dinheiro negociado para a realização de Dark Horse e a forma como esses recursos foram encaminhados. Documentos analisados pelos investigadores indicam que o projeto previa investimentos de até US$ 24 milhões, enquanto pelo menos US$ 12,3 milhões teriam sido enviados em 2025 para o Havengate Development Fund, nos Estados Unidos. A existência desses repasses passou a ser examinada diante das dúvidas sobre a real utilização do dinheiro e sobre a estrutura criada para administrar os valores.

Nesse contexto, a participação de Flávio Bolsonaro ganhou importância para a investigação porque a PF o classificou como interlocutor direto de Daniel Vorcaro nas tratativas relacionadas ao financiamento. Segundo os documentos, o senador teria acompanhado o andamento das gravações, cobrado pagamentos e participado de reuniões relacionadas à produção cinematográfica. Dessa forma, a atuação de Flávio deixou de ser apresentada apenas como uma participação indireta no projeto e passou a ser descrita pelos investigadores como uma interlocução direta com o principal financiador.

Outro elemento relevante está relacionado à administração dos recursos nos Estados Unidos, que teria envolvido pessoas próximas à família Bolsonaro. A PF afirma que Eduardo Bolsonaro teria apresentado orientações sobre como os valores enviados por Vorcaro poderiam ser administrados no exterior, enquanto Flávio havia informado anteriormente que o fundo era gerido pelo advogado ligado ao irmão. Entretanto, os investigadores passaram a analisar se parte dos recursos efetivamente permaneceu vinculada aos custos do filme ou se teve outras destinações.

Dinheiro do filme é confrontado com dados financeiros da PF

A investigação também colocou em evidência uma diferença entre a perícia particular apresentada pela produtora e os dados obtidos pela Polícia Federal. Segundo levantamento contratado pela Go Up Entertainment, o custo da produção no Brasil teria alcançado aproximadamente R$ 20,9 milhões, com a maior parte dos recursos apontada como proveniente do exterior. Já os dados analisados pela PF a partir de informações do Coaf indicaram cerca de R$ 9 milhões recebidos pela produtora durante o período das gravações, sendo uma parcela significativa proveniente do Brasil.

A diferença entre os levantamentos não significa, por si só, que tenha sido comprovada uma irregularidade, mas passou a ser considerada relevante para o esclarecimento da origem dos recursos. A PF também analisa movimentações envolvendo empresas relacionadas à produção e possíveis conexões com dinheiro público, inclusive diante de suspeitas de que R$ 750 mil transferidos para a produtora possam ter origem em emendas parlamentares. As circunstâncias dessas operações continuam sendo investigadas e os envolvidos negam irregularidades.

Paralelamente, o relatório da PF apontou dúvidas sobre a própria dimensão econômica planejada para Dark Horse. O plano de negócios previa uma bilheteria que poderia chegar a US$ 100 milhões, valor muito superior ao recorde brasileiro de arrecadação cinematográfica, enquanto o projeto era apresentado como uma produção de grande alcance internacional. Para os investigadores, a discrepância entre as projeções, os custos e o mercado audiovisual brasileiro passou a ser um dos elementos considerados na análise sobre a viabilidade econômica da obra e sobre a possível utilização dos recursos.

Investigação sobre Dark Horse chega ao centro da disputa política

A apuração sobre o filme ocorre em um momento particularmente sensível para Flávio Bolsonaro, que é candidato à Presidência da República nas eleições de 2026. O senador tem sustentado que o financiamento do projeto foi privado e nega ter cometido qualquer irregularidade, enquanto acusa setores ligados ao governo e ao STF de utilizar o caso com finalidade política. Ao mesmo tempo, a investigação passou a ser oficialmente conduzida dentro de inquéritos que analisam suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e outros possíveis crimes relacionados ao financiamento.

A situação também ganhou novos contornos após o levantamento do sigilo de documentos do inquérito conduzido pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Com a divulgação dos elementos reunidos pela PF, passaram a ser conhecidos detalhes sobre as negociações entre Flávio e Vorcaro, o funcionamento do fundo nos Estados Unidos e as movimentações relacionadas à produção. Ainda assim, os documentos representam elementos de uma investigação em andamento, e não uma conclusão definitiva sobre eventual responsabilidade criminal dos envolvidos.

O caso Dark Horse, portanto, deixou de ser apenas uma discussão sobre a produção de uma cinebiografia de Jair Bolsonaro e passou a envolver uma complexa apuração sobre origem, circulação e destino de recursos. De um lado, Flávio afirma que os valores foram destinados ao projeto e que as contas da produção foram apresentadas pela empresa responsável; de outro, a PF aponta inconsistências que precisam ser esclarecidas antes que a versão financeira apresentada pelos envolvidos possa ser considerada compatível com os dados investigados.

Com o avanço das investigações, novos documentos poderão esclarecer se as diferenças identificadas entre os relatos e as movimentações financeiras têm explicações contábeis ou se indicam irregularidades. A análise também deverá determinar qual foi exatamente o destino dos recursos encaminhados ao fundo nos Estados Unidos e se houve utilização de dinheiro público na cadeia financeira relacionada ao filme. Até que essas etapas sejam concluídas, as suspeitas permanecem sob investigação e não equivalem a uma condenação ou comprovação definitiva de crime.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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