Marco Rubio se aproxima e aponta para Lula na ONU

A saída das delegações após os discursos na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, registrou um momento de aproximação que não se concretizou. O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, dirigiu-se ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva com intenção de falar, mas não conseguiu alcançá-lo antes de o brasileiro deixar o plenário. O chanceler Mauro Vieira, por sua vez, fez um aceno ao chefe da diplomacia americana, em gesto que manteve o canal de comunicação aberto, ainda que sem conversa efetiva entre os dois lados.
O episódio contrasta com o ocorrido no ano anterior, quando os presidentes Lula e Donald Trump se encontraram, trocaram um abraço e conversaram brevemente. Na ocasião, o americano chegou a afirmar que havia uma “química excelente” entre os dois, num contato que sinalizou reaproximação e abriu caminho para diálogos entre os governos. Em 2026, porém, não houve encontro entre os chefes de Estado, num cenário de tensão diplomática renovada, com medidas como tarifas comerciais e a revogação de visto da embaixadora Maria Luiza Viotti.
Os discursos refletiram essa distância. Donald Trump não fez menção nominal ao Brasil, mas abordou temas que ressoam fortemente na região: a possibilidade de uso de força militar “se necessário” na América Latina e a classificação de grupos como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas. O pronunciamento seguiu a linha de postura firme que tem caracterizado sua política externa desde o retorno à Casa Branca.
Já Lula, que falou antes de Trump, não citou os Estados Unidos nominalmente, mas dirigiu críticas claras a posturas atribuídas à maior potência militar do mundo. O presidente questionou interferências na América Latina e no Caribe, comentou as tarifas aplicadas em julho e destacou que, mesmo com os encargos, o Brasil deve bater novo recorde de exportações. Também mencionou preocupações sobre ameaças ao sistema de pagamentos instantâneos e tentativas de influência em processos eleitorais e no combate ao crime organizado.
A diferença de tom entre os dois líderes evidencia a mudança de clima nas relações bilaterais. Enquanto no ano passado predominou a cordialidade, agora cada lado expõe publicamente suas posições e preocupações, sem evitar os pontos de divergência. A ausência de menção direta de um ao outro pode ser interpretada como estratégia para não elevar ainda mais a temperatura, mas não esconde as diferenças sobre comércio, soberania e segurança na região.
A comunidade internacional acompanha os desdobramentos na expectativa de que os canais diplomáticos permaneçam ativos. As relações entre países não se reduzem a encontros ou discursos; baseiam-se também em diálogo constante, negociações e respeito mútuo. Que as próximas etapas possam conciliar a defesa dos interesses de cada nação com a busca de entendimento, de modo a preservar a cooperação entre dois países que mantêm laços históricos e importantes para o continente.





