Renan Santos chegou a ensaiar as perguntas que faria a Flávio Bolsonaro no debate da Globo

O debate presidencial que seria realizado pela TV Globo em 1º de outubro acabou cancelado, mas algumas das perguntas que poderiam ter sido feitas aos candidatos já haviam sido preparadas. Segundo reportagem do colunista Diego Amorim, do Estado de Minas, Renan Santos, candidato do Missão, havia definido pelo menos duas perguntas que pretendia direcionar a Flávio Bolsonaro, do PL. Os temas escolhidos envolviam as antigas investigações sobre suspeitas de rachadinha e a relação de Flávio com o advogado Willer Tomaz.
Renan havia sido autorizado a participar do debate por decisão do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, depois de inicialmente ficar fora da lista de convidados. A decisão ocorreu poucas horas antes do programa e determinou que o candidato tivesse as mesmas condições de participação dos demais concorrentes. Entretanto, a desistência de Flávio Bolsonaro e a decisão do Tribunal Superior Eleitoral sobre as regras para candidatos ausentes contribuíram para que a Globo cancelasse o encontro.
Foi nesse contexto que Renan teria preparado uma estratégia específica para abordar Flávio. De acordo com a reportagem de Diego Amorim, o candidato do Missão pretendia fazer as duas perguntas e, depois das respostas, utilizar as réplicas para apresentar outros detalhes relacionados aos assuntos levantados. Assim, embora o confronto não tenha ocorrido, os questionamentos permitem compreender quais pontos Renan pretendia colocar no centro da discussão eleitoral.
Renan Santos queria questionar Flávio sobre rachadinha
A primeira pergunta preparada por Renan Santos trataria das investigações envolvendo suspeitas de rachadinha no antigo gabinete de Flávio Bolsonaro quando ele era deputado estadual no Rio de Janeiro. Conforme publicado pelo Estado de Minas, a formulação pensada pelo candidato do Missão seria: “Por que Fabrício Queiroz pagava suas contas pessoais?”. A questão faria referência ao ex-assessor Fabrício Queiroz, personagem central das investigações que envolveram movimentações financeiras relacionadas ao gabinete de Flávio.
O tema é antigo, mas voltou a aparecer no contexto da campanha presidencial de 2026. A investigação sobre as movimentações financeiras de Queiroz ganhou repercussão nacional a partir de relatórios do antigo Coaf e posteriormente foi alvo de procedimentos no Ministério Público do Rio de Janeiro, envolvendo suspeitas relacionadas ao funcionamento do gabinete de Flávio quando ele exercia o mandato de deputado estadual. Ao longo do caso, Flávio negou irregularidades e afirmou que não praticou rachadinha, enquanto decisões judiciais modificaram o andamento das investigações em diferentes momentos.
A pergunta preparada por Renan, portanto, buscaria levar Flávio a responder diretamente sobre uma questão que já esteve no centro do debate público em torno de sua carreira política. Além disso, o formato previsto permitiria que o assunto fosse aprofundado na réplica, caso houvesse tempo e espaço para isso. Segundo a reportagem, era justamente essa a estratégia planejada pelo candidato do Missão: ouvir a primeira resposta e, posteriormente, insistir no tema com novos detalhes.
Renan também questionaria relação com Willer Tomaz
A segunda pergunta preparada por Renan tinha como foco Willer Tomaz, advogado que mantém relação de amizade com Flávio Bolsonaro e cujo nome apareceu em diferentes episódios envolvendo investigações e personagens da política brasileira. A formulação apresentada na reportagem era direta: “Quem é Willer Tomaz e qual é sua relação com ele?”. O objetivo seria fazer com que Flávio explicasse publicamente a proximidade com o advogado durante um confronto transmitido pela televisão.
O nome de Willer Tomaz ganhou destaque em diferentes investigações ao longo dos últimos anos, e sua relação com figuras políticas passou a ser novamente explorada durante as discussões sobre o círculo de contatos de Daniel Vorcaro. Renan já havia citado a relação entre Flávio, Willer Tomaz e o ex-banqueiro em declarações anteriores à imprensa, afirmando que pretendia questionar o candidato do PL sobre essas conexões. Essas acusações e interpretações, contudo, devem ser apresentadas como posicionamentos de Renan, e não como comprovação de irregularidade por parte de Flávio.
A escolha desse segundo tema também mostra que Renan pretendia concentrar sua participação em perguntas sobre relações pessoais e episódios controversos envolvendo o adversário. Conforme relatado por Diego Amorim, a intenção não seria apenas formular as perguntas, mas utilizar as respostas de Flávio como ponto de partida para novos questionamentos durante as réplicas. Dessa forma, o debate poderia ter colocado frente a frente dois candidatos que já vinham trocando críticas publicamente durante a campanha.
O debate da Globo acabou cancelado
A participação de Renan no debate foi confirmada depois de uma decisão de Gilmar Mendes que determinou sua inclusão no programa. Pouco depois, porém, Flávio Bolsonaro anunciou que não participaria do encontro, atribuindo sua decisão às mudanças determinadas pela Justiça Eleitoral nas regras relacionadas à ausência de Lula. A Globo recebeu ainda uma decisão que impedia a exibição destacada do púlpito reservado ao presidente e a formulação de perguntas dirigidas ao candidato ausente.
Com as mudanças determinadas judicialmente e a desistência de Flávio, a emissora decidiu cancelar o debate que estava marcado para aquela noite. No momento do cancelamento, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Augusto Cury já estavam nos estúdios da Globo, enquanto Renan havia obtido judicialmente o direito de participar. A emissora justificou o cancelamento afirmando que as decisões tomadas horas antes haviam interferido nas regras previamente estabelecidas para o encontro.
As duas perguntas que Renan Santos preparou, portanto, acabaram não sendo feitas a Flávio Bolsonaro diante das câmeras. Uma delas abordaria Fabrício Queiroz e as antigas investigações sobre rachadinha, enquanto a outra trataria da relação de Flávio com Willer Tomaz. O episódio acabou deixando registrados os temas que poderiam ter marcado um eventual confronto direto entre os dois candidatos, mas sem que fosse possível conhecer as respostas que Flávio daria às questões ou os desdobramentos que Renan pretendia apresentar nas réplicas.





