Parlamentares nos Estados Unidos cobram explicações de Trump sobre fuga de Flávio Bolsonaro do Brasil

A deputada democrata Sydney Kamlager-Dove, dos Estados Unidos, classificou Flávio Bolsonaro (PL) como um “negacionista eleitoral” e cobrou explicações do governo de Donald Trump sobre a ajuda oferecida ao senador brasileiro para deixar o Brasil e entrar em território americano. A manifestação foi publicada nesta sexta-feira, 30 de outubro, em meio à repercussão da viagem do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro para os Estados Unidos, depois da derrota na eleição presidencial. A parlamentar também questionou por que a administração republicana estaria acolhendo um político que contestou o resultado das urnas sem apresentar provas de fraude.
Em uma publicação na rede social X, Sydney fez uma declaração direta sobre o episódio: “O povo americano merece respostas sobre por que a administração Trump está abrigando um negacionista eleitoral e fraudador”. A deputada afirmou ainda que está liderando uma investigação parlamentar para esclarecer como o Departamento de Estado teria ajudado Flávio a deixar o território brasileiro e por quais motivos foi concedida autorização para sua entrada nos Estados Unidos. A manifestação amplia a repercussão internacional do caso e coloca o tratamento recebido pelo senador no centro de uma discussão política dentro do Congresso americano.
Sydney Kamlager-Dove lidera um grupo de 25 parlamentares democratas que encaminhou uma carta ao Departamento de Estado solicitando informações sobre a participação de autoridades americanas na viagem. Entre os questionamentos estão a concessão dos documentos migratórios, o conhecimento das autoridades sobre a situação judicial do senador e a eventual utilização de recursos governamentais para organizar o deslocamento. A iniciativa também conta com a participação da deputada Dina Titus, de Nevada, e busca esclarecimentos do secretário de Estado Marco Rubio sobre as decisões tomadas pelo governo Trump.
Deputada dos EUA chama Flávio de negacionista eleitoral e questiona Trump
A declaração de Sydney ocorreu depois que o senador brasileiro chegou aos Estados Unidos acompanhado da mulher, Fernanda, e das duas filhas. A viagem foi realizada em um jato particular que saiu da Argentina, fez uma escala em Guayaquil, no Equador, e posteriormente pousou em Miami, na Flórida. Segundo informações publicadas pelo The New York Times, Jason Miller, assessor de comunicação da Casa Branca e aliado político da família Bolsonaro, providenciou a aeronave utilizada no transporte, informação que também foi confirmada pelo próprio funcionário ao Metrópoles.
A participação de Miller passou a ser um dos principais pontos da cobrança feita pelos democratas, que querem saber se o funcionário atuou individualmente ou se houve coordenação com outros setores da administração americana. Os parlamentares também questionam se o Departamento de Estado tinha conhecimento da determinação judicial brasileira que impedia Flávio de deixar o país e estabelecia a entrega de seus passaportes. Além disso, querem esclarecer quais critérios foram utilizados para autorizar a entrada do senador e de seus familiares, especialmente diante das investigações existentes no Brasil.
Na avaliação dos parlamentares democratas, o episódio exige transparência porque envolve uma figura política estrangeira, uma decisão judicial e possíveis relações entre autoridades de diferentes países. A carta encaminhada a Marco Rubio procura identificar quem autorizou os procedimentos migratórios, quando as decisões foram tomadas e se houve participação de funcionários americanos na organização da viagem. O grupo também pretende saber se representantes do governo brasileiro procuraram Washington para obter informações sobre o deslocamento do senador.
Carta de Flávio Bolsonaro contestou resultado das eleições brasileiras
A expressão utilizada pela deputada americana está relacionada principalmente à carta divulgada por Flávio Bolsonaro depois de sua chegada aos Estados Unidos. No documento inicial, o senador contestou o resultado das eleições presidenciais e chegou a se apresentar como “o verdadeiro presidente eleito do Brasil”, apesar de ter sido derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Posteriormente, o parlamentar modificou o texto e substituiu a expressão por “líder do Brasil”, depois da repercussão provocada pela autoproclamação.
Lula venceu o segundo turno com 51,79% dos votos válidos, enquanto Flávio recebeu 48,21%, uma diferença superior a 4 milhões de votos. O resultado foi reconhecido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e acompanhado por observadores internacionais, que não identificaram irregularidades capazes de comprometer a votação. Entretanto, o senador apresentou questionamentos sobre o processo eleitoral, especialmente em relação à decisão que prorrogou o horário de votação até as 19h, argumento que também foi utilizado por aliados para colocar em dúvida a legitimidade da vitória petista.
A contestação do resultado ganhou repercussão porque a primeira versão da carta continha uma declaração de vitória que contrariava os números oficiais da apuração. Além disso, Flávio agradeceu publicamente a Donald Trump e ao presidente argentino Javier Milei pelo apoio recebido durante sua saída do Brasil. A deputada Sydney Kamlager-Dove utilizou justamente a contestação eleitoral como fundamento para criticar o acolhimento concedido ao senador pela administração americana.
Investigação brasileira e possível ajuda do governo Trump
A saída de Flávio Bolsonaro aconteceu depois que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a entrega dos passaportes do senador e proibiu sua saída do território brasileiro. A medida foi adotada no contexto de investigações conduzidas pela Polícia Federal, que apuram suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. O parlamentar é investigado, mas não foi condenado pelos fatos mencionados, e as suspeitas ainda dependem da conclusão das apurações e de eventual análise judicial.
A Polícia Federal também procura esclarecer como Flávio saiu de Brasília e chegou à região de Foz do Iguaçu, no Paraná, antes de atravessar a fronteira com a Argentina. Os investigadores apuram a possível participação de empresários, aliados políticos e pessoas que poderiam ter oferecido suporte logístico e financeiro ao deslocamento. Enquanto isso, a confirmação de que Jason Miller providenciou o avião aumentou a pressão sobre o governo Trump e passou a integrar os questionamentos apresentados pelos deputados americanos.
O caso reúne, portanto, duas discussões que ganharam dimensão internacional: a contestação do resultado das eleições brasileiras por Flávio Bolsonaro e a possível participação de integrantes do governo americano em sua saída do país. Sydney Kamlager-Dove pretende obter respostas sobre a atuação do Departamento de Estado e os critérios utilizados para conceder autorização de entrada ao senador e à família. Com isso, a viagem de Flávio deixou de ser apenas um assunto relacionado à política brasileira e passou a provocar uma cobrança institucional dentro do próprio Congresso dos Estados Unidos.





